Por Siqueira Costa Júnior
(Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a posição editorial do site.)
Se política é articulação, na Bahia o que se viu nas últimas horas da janela partidária foi algo mais próximo de um mercado em liquidação: correria, ruído e decisões de alto impacto tomadas no apagar das luzes. O resultado foi um ambiente de tensão que expôs fragilidades internas, especialmente em partidos que deveriam sair fortalecidos para o próximo ciclo eleitoral.
O caso mais emblemático é o do PL. A sigla, que vinha consolidando um núcleo bolsonarista orgânico no estado, decidiu apostar em movimentos de última hora que geraram curto-circuito interno. A chegada de novos nomes para disputas majoritárias, sem construção prévia com a base, foi lida como imposição e como quebra de acordos tácitos.
Nos bastidores, o diagnóstico é direto: faltou governança política. Lideranças históricas do bolsonarismo baiano reagiram mal não apenas ao conteúdo das decisões, mas principalmente à forma. O sentimento dominante é de que o partido abriu mão de coesão em troca de apostas eleitorais de curto prazo. Em um ambiente de lista competitiva e voto pulverizado, isso representa alto risco eleitoral.
O efeito prático já aparece na conta das projeções. Hoje, a leitura que circula entre articuladores é de que o PL pode alcançar quatro vagas na bancada federal baiana em 2026. Ainda assim, a disputa interna beira o “cada um por si”, já que nomes com densidade eleitoral consolidada terão de dividir espaço com recém-chegados, o que amplia a imprevisibilidade e pode provocar desperdício de votos por falta de coordenação estratégica.
Nesse cenário de rearrumação, uma das movimentações mais comentadas foi a saída do ex-vereador Alexandre Aleluia do PL. Ele migrou para o Partido Novo, onde passou a anunciar sua pré-candidatura a deputado federal. O movimento ocorre em meio à articulação do pai, José Carlos Aleluia, que também está colocado na disputa majoritária como pré-candidato ao Governo da Bahia.
Enquanto isso, no campo oposto, o PT também enfrenta desgaste interno, embora de forma menos barulhenta. A saída de quadros históricos por falta de espaço sinaliza um problema de gestão interna e renovação. Um dos casos mais relevantes é o de Moema Gramacho, nome histórico do partido, que deixou a legenda e migrou para o MDB. A mudança tem forte peso simbólico no tabuleiro político baiano. E, nos bastidores, a pergunta já circula em tom de ironia: Moema continuará vestindo vermelho mesmo fora do PT ou terá de mudar também o guarda-roupa político?
Além de Moema, também há expectativa em torno de uma possível saída do ex-prefeito de Alagoinhas, outro nome historicamente ligado ao PT. O movimento, se confirmado, reforçará a leitura de que há desalinhamento entre tradição partidária e estratégia atual da legenda no estado.
A divisão entre correntes internas petistas também volta ao radar. Ainda que publicamente haja esforço de unidade, o histórico recente mostra que disputas desse tipo deixam marcas. E, em eleição apertada, essas marcas costumam pesar.
No meio desse cenário turbulento, partidos como União Brasil e Republicanos aparecem com vantagem competitiva. Com estruturas mais organizadas e menor nível de conflito interno visível, entram na disputa com planejamento mais claro e metas objetivas de bancada. Em política, previsibilidade é ativo.
A conta preliminar da disputa por vagas na Câmara dos Deputados na Bahia já circula nos bastidores. A projeção mais comentada hoje aponta uma vaga para o PSB, duas para o Avante, duas para o MDB, cinco para o PSD, uma para o PDT, oito para a federação liderada pelo PT, duas para o PSDB, quatro para o PL, quatro para o Republicanos e oito para a federação União Brasil. Ao todo, são 37 vagas em disputa. Nesse desenho, duas cadeiras ainda aparecem como “rodando”, com maior probabilidade de ficarem entre a federação União Brasil e a federação do PT, a depender do desempenho final das chapas e da distribuição das sobras.
O que se desenha, portanto, é um cenário em que não basta ter nomes fortes. É preciso ter estratégia, coordenação e gestão de grupo. Partidos que ignoram isso tendem a pagar o preço nas urnas.
A eleição na Bahia começa a ganhar forma não apenas pelas candidaturas postas, mas pelas feridas abertas nos bastidores. E, como a experiência mostra, muitas vezes é ali, longe dos palanques, que o jogo realmente se decide.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















