Há quem ainda pare tudo para assistir à Seleção Brasileira. Há quem vista a camisa amarela acreditando que ali estão representados o povo, a história e o orgulho nacional. Mas essa seleção, há muito tempo, deixou de representar o Brasil.
Quem assistiu à campanha de Cabo Verde em uma Copa do Mundo viu algo que o futebol brasileiro perdeu há anos: entrega, paixão e respeito pela camisa. Um pequeno país emocionou o mundo. Jogadores que sabiam de suas limitações técnicas compensavam tudo com vontade. O goleiro Vozinha tornou-se símbolo de superação, e o técnico foi aplaudido de pé em sua última entrevista coletiva. Não pelos resultados, mas pela dignidade.
Do outro lado, vemos uma Seleção Brasileira milionária, cercada de contratos, patrocinadores, marketing e interesses comerciais, mas incapaz de transmitir emoção.
O resultado em campo deixa de ser surpresa.
O Brasil entra perdido taticamente, sem liderança, sem identidade e, muitas vezes, sem alma.
A maior seleção da história do futebol parece incapaz de fazer aquilo que sempre soube: jogar bola.
A decadência não começou dentro das quatro linhas.
Ela começou nos gabinetes da CBF.
Uma entidade que há décadas convive com denúncias, investigações, disputas judiciais e suspeitas envolvendo sua administração. A Confederação Brasileira de Futebol tornou-se muito mais conhecida por suas crises políticas do que por projetos para fortalecer o futebol nacional.
Enquanto isso, o torcedor continua acreditando que aquela camisa ainda representa o país.
Não representa.
Representa interesses econômicos.
Representa contratos milionários.
Representa patrocinadores.
Representa o mercado das apostas esportivas, das campanhas publicitárias e da indústria do entretenimento.
O futebol brasileiro deixou de ser prioridade.
O produto virou prioridade.
A impressão é que o jogador que mais interessa nem sempre é o que está em melhor fase, mas aquele que melhor atende aos interesses comerciais do momento.
Durante décadas, o Brasil revelou craques que sonhavam vestir a camisa da seleção.
Hoje, muitos parecem mais preocupados com redes sociais, publicidade, festas, cruzeiros, influenciadores digitais e contratos de imagem do que com o peso da camisa que vestem.
A última vez que muitos brasileiros sentiram alguém carregando verdadeiramente a Seleção nas costas foi com Ronaldo Fenômeno, em 2002.
Depois de uma lesão que muitos acreditavam encerrar sua carreira, ele voltou, enfrentou todas as dúvidas, foi decisivo e conquistou o pentacampeonato. Não havia discurso sobre desgaste, calendário ou compromissos comerciais.
Havia fome de vencer.
Hoje, infelizmente, o que mais se vê são jogadores reclamando do calendário, da concentração e do desgaste antes mesmo de a competição começar.
Quem considera defender a Seleção um peso talvez devesse abrir mão da convocação.
Vestir a camisa do Brasil deveria ser um privilégio, não uma obrigação contratual.
Também é preciso questionar outro modelo que virou regra.
Existe uma idolatria quase automática pelos atletas que atuam na Europa.
Como se jogar fora do país fosse, por si só, certificado de superioridade.
Não é.
Jogar na Europa muitas vezes significa oportunidade, empresários influentes, mercado e circunstâncias.
Não significa necessariamente que sejam melhores do que muitos atletas que atuam no futebol brasileiro.
Talvez esteja na hora de valorizar mais quem vive a realidade do país.
Quem sai do estádio e encontra pessoas passando fome.
Quem vê trabalhadores pegando ônibus lotados.
Quem conhece, de perto, as dificuldades do povo brasileiro.
Talvez isso desperte algo que falta à Seleção há muito tempo: identificação.
Porque paixão não nasce de campanhas publicitárias.
Paixão nasce de pertencimento.
E o brasileiro também precisa fazer sua autocrítica.
Existe uma idolatria quase religiosa pela Seleção Brasileira.
Como se ela fosse a própria representação do Brasil.
Não é.
O Brasil é muito maior do que onze jogadores milionários.
É maior do que uma entidade privada chamada CBF.
É maior do que patrocinadores.
É maior do que direitos de transmissão.
É maior do que contratos de publicidade.
Enquanto milhões de brasileiros sofrem diariamente para colocar comida na mesa, há quem trate uma derrota da Seleção como a maior tragédia nacional.
Não é.
Os verdadeiros problemas do Brasil estão muito longe de um estádio de futebol.
O futebol pode emocionar.
Pode unir.
Pode divertir.
Mas jamais deve servir para anestesiar um povo ou fazê-lo acreditar que uma entidade privada representa sua identidade nacional.
O Brasil merece muito mais do que isso.
E a Seleção Brasileira, enquanto continuar refém de interesses políticos, econômicos e comerciais, continuará distante daquilo que um dia fez milhões de brasileiros se apaixonarem por ela.
A camisa continua sendo pesada.
O problema é que muitos dos que a vestem parecem não compreender mais o seu verdadeiro significado.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















