Há momentos em que a política muda sem que um único voto seja depositado na urna. Bastam alguns gestos, algumas falas e, principalmente, o timing. O fim de semana entregou exatamente isso.
Enquanto Jacques Wagner deixava a liderança do governo no Senado cercado de desgaste e explicações pouco convincentes, Michelle Bolsonaro reaparecia no cenário nacional em um movimento que, na minha avaliação, está longe de ter sido espontâneo.
São fatos aparentemente desconectados. Mas talvez não sejam.
Jacques Wagner negou até o último momento que deixaria a liderança do governo. Pouco tempo depois, a saída foi confirmada. O desgaste veio acompanhado das explicações sobre sua relação com um empresário ligado ao Banco Master. Segundo sua versão, esse empresário teria comprado um apartamento de aproximadamente R$ 2,5 milhões para que, futuramente, ele próprio adquirisse o imóvel e o destinasse à filha.
É uma narrativa difícil de assimilar para quem vive a realidade do brasileiro comum. Enquanto milhões de famílias lutam para pagar aluguel ou financiar a casa própria, um senador da República afirma precisar recorrer a um terceiro para comprar um imóvel desse valor. A explicação, convenhamos, convence muito pouco.
Mas o assunto que realmente chamou minha atenção veio do outro lado do tabuleiro político.
Em pleno dia de jogo da Seleção Brasileira, Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo de quase trinta minutos.
Não foi um desabafo.
Também não foi uma gravação improvisada feita com celular na sala de casa.
Havia roteiro, iluminação, cenário, linguagem corporal, controle emocional e uma construção narrativa cuidadosamente planejada. Quem conhece minimamente comunicação política percebe rapidamente quando existe media training por trás de um pronunciamento. E ali havia.
Michelle falou de sua trajetória no PL Mulher, destacou o crescimento da participação feminina no partido durante sua gestão, relembrou as viagens pelo Brasil durante as campanhas eleitorais e utilizou passagens pessoais envolvendo Jair Bolsonaro para construir uma narrativa emocional sem perder o controle da mensagem.
Nada parecia por acaso.
E é justamente aí que mora o ponto mais interessante.
Tenho enorme dificuldade em acreditar que um vídeo dessa dimensão tenha sido produzido sem o conhecimento — e, muito provavelmente, sem a concordância — de Jair Bolsonaro. Nos bastidores, já circulam informações de que ele teria sido informado previamente.
Se isso realmente aconteceu, o vídeo deixa de ser apenas uma resposta a críticas internas e passa a representar algo muito maior.
Pode ter sido o primeiro ato de uma nova candidatura sendo apresentada ao país.
Antes que alguém diga que isso é exagero, vale observar outro detalhe que poucos parecem estar analisando.
O maior eleitorado brasileiro é formado por mulheres.
Isso muda completamente qualquer cálculo eleitoral.
Gostem ou não de Michelle Bolsonaro, acompanhem ou não a política diariamente, muitas eleitoras enxergam nela características diferentes das encontradas nos nomes tradicionais da direita. Ela não construiu sua imagem como parlamentar. Nunca disputou eleições para cargos executivos. Sua identidade pública sempre esteve muito mais ligada ao papel de esposa, mãe e apoiadora do ex-presidente.
Essa percepção pode produzir um efeito eleitoral importante.
Existe uma diferença enorme entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro.
O principal cabo eleitoral de ambos é Jair Bolsonaro.
Mas o desgaste de uma eventual preferência de Jair por Michelle seria muito menor do que insistir em Flávio como sucessor político.
A razão é simples.
Flávio é visto por grande parte do eleitorado como uma extensão do pai. Para seus apoiadores, isso pode ser uma qualidade. Para quem procura uma renovação dentro do mesmo campo político, pode representar justamente o contrário.
Michelle oferece algo diferente.
Ela carrega o sobrenome Bolsonaro, mas não carrega exatamente a mesma imagem.
Não possui o mesmo histórico parlamentar.
Não está associada aos principais embates políticos dos últimos anos.
Sua rejeição, segundo diversas pesquisas divulgadas recentemente, também aparece abaixo da registrada por outros nomes que disputam espaço na direita.
Em uma eleição cada vez mais polarizada, esse talvez seja um dos ativos mais valiosos que um candidato possa ter.
Enquanto isso, episódios recentes envolvendo Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro acabaram produzindo novos desgastes para a família. Independentemente das conclusões que cada eleitor tire desses episódios, é inegável que eles desviaram o foco justamente em um momento em que Lula enfrentava dificuldades políticas.
Curiosamente, quem permaneceu preservada durante todo esse processo foi Michelle.
Ela corre por fora.
Sem mandato.
Sem precisar responder diariamente aos embates do Congresso.
Sem carregar parte do desgaste acumulado pelos filhos do ex-presidente.
É justamente essa condição que pode transformá-la em uma candidata mais competitiva do que muitos imaginavam poucos meses atrás.
Há ainda um detalhe político que costuma passar despercebido.
Desde os primeiros anos da ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência, sempre circularam relatos de tensões entre Michelle e alguns integrantes da família. Essas especulações nunca desapareceram completamente e voltam à superfície sempre que surgem disputas internas sobre o futuro do grupo político.
O vídeo divulgado neste fim de semana reforça a impressão de que Michelle decidiu deixar definitivamente a posição de coadjuvante.
A sensação é semelhante à de uma partida de futebol.
Enquanto um jogador enfrenta dificuldades dentro de campo, outro começa discretamente a se aquecer no banco de reservas.
Talvez ainda não seja a hora da substituição.
Mas ninguém faz aquecimento por quase trinta minutos diante de milhões de espectadores sem imaginar que poderá ser chamado para entrar em campo.
E talvez seja exatamente isso que estejamos assistindo.
A política brasileira costuma dar sinais antes de promover mudanças.
Para mim, o vídeo de Michelle Bolsonaro foi um desses sinais.
Se ela realmente entrar na disputa presidencial, muita gente que hoje apoia outros nomes da direita poderá mudar de posição rapidamente. Não apenas pelo sobrenome que ela carrega, mas porque, aos olhos de parte do eleitorado, ela representa algo raro na política atual: continuidade sem parecer repetição.
E, em política, às vezes é justamente essa diferença que decide uma eleição.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















