Há décadas que o São João da Bahia não era tão pobre. Não de alegria — porque o baiano sempre arranja jeito de sambar no chão batido — mas pobre de festa, de movimento, de economia e de vergonha alheia.
O que vimos em junho de 2026 foi o resultado amargo de anos de intervenção governamental disfarçada de política cultural, mas que na prática serviu a um único propósito: concentrar dinheiro público nas mãos de poucos, comprar votos no interior e deixar artistas, empresários e cidades inteiras pagando a conta.
O órgão que comanda o fomento às festas populares na Bahia se chamava Bahiatursa. Em 2014, trocou de nome e virou Sufotur — Superintendência de Fomento ao Turismo —, vinculada à Secretaria de Turismo.
Mudou a placa. A gestão ficou nas mesmas mãos: as de Diogo Medrado, que comandou o órgão por quase uma década. Sob sua liderança, o orçamento saltou de R$ 79 milhões em 2019 para R$ 623 milhões em 2024 — crescimento de quase 700%. Somados todos os anos até 2026, o total supera R$ 1,84 bilhão em dinheiro público movimentado.
O Tribunal de Contas do Estado desaprovou as contas em 2019, 2022, 2023 e 2024, apontando sobrepreço, empresas fantasmas compartilhando endereço e e-mail, notas fiscais infladas e contratações sem licitação. Mesmo assim, Medrado permaneceu no cargo. Jerônimo Rodrigues fez cara de paisagem.
Os números são para envergonhar qualquer gestor honesto. Artistas com cachê de R$ 8 mil no mercado privado receberam R$ 78 mil por show pago pela Sufotur. Músicos eram pressionados a emitir notas acima de R$ 50 mil para que os contratos fossem aceitos pelas produtoras.
Quatro empresas ligadas entre si embolsaram R$ 58 milhões em 641 pagamentos entre 2023 e 2025. O Ministério Público abriu investigação criminal por crimes contra a administração pública e lavagem de dinheiro. E enquanto isso, artistas baianos honestos dormiam sem receber.
O cantor Genàrd Melo denunciou publicamente uma dívida de R$ 200 mil por shows realizados desde 2019. Fez empréstimo de R$ 50 mil para bancar as apresentações, endividou-se, entrou em depressão e hoje vende comida por aplicativo para sobreviver.
Há casos semelhantes que remontam a 2018. Empresas faliram. Ninguém foi pago. Ninguém foi punido.
Diogo Medrado saiu pela porta dos fundos em agosto de 2024 — não para responder pelas irregularidades, mas para coordenar campanhas eleitorais, entre elas a do seu pai, Marcos Medrado, eleito prefeito de Valença, no Baixo Sul da Bahia.
E foi para lá que Diogo se refugiou. Segundo boatos que circulam abertamente na cidade, o filho é quem hoje comanda boa parte das secretarias municipais, indicando cargos, afastando pessoas competentes e interferindo na administração do pai de forma tão nítida que a própria população já reclama. Marcos Medrado, com idade avançada, tenta tocar a prefeitura, mas a sombra do filho pesa — e prejudica.
Em 2026, o São João colheu o que essa gestão plantou. O MP, o TCE e o TCM apertaram o cerco com a Nota Técnica Conjunta nº 01/2026, que limitou os cachês ao patamar de 2025.
O resultado foi um cancelamento em massa: Pojuca, Irecê, Ibirataia, Quijingue e dezenas de outras cidades desmontaram suas programações.
O São João do Parque de Exposições em Salvador foi cancelado pelo próprio governo. Xand Avião não veio. Flávio José — que priorizou a Bahia por toda a carreira — cancelou 15 datas, indignado ao ver artistas sem ligação alguma com o forró ganhando fortunas em cidades aliadas do governador.
Cachoeira fez um vexame. Amargosa, Jequié, Ibiqüi, Madre de Deus, Santo Antônio de Jesus — cidades que já tiveram festas privadas vibrantes, com camarotes e dois dias de forró movimentando hotéis, bares e barracas — ficaram com a praça vazia.
E aí está o crime maior. Por anos, o Estado destruiu o mercado privado de festas juninas no interior. O empresário não compete com show gratuito bancado com dinheiro público.
As festas particulares foram morrendo. E o que ficou foi um modelo eleitoreiro, dependente do governo e podre por dentro. Quando o MP chegou, a festa desmoronou — e quem pagou a conta foi o barraqueiro, o hoteleiro, o pequeno comerciante que esperou junho para respirar.
O São João precisa ser reinventado com menos governo, não com mais. Que o Estado entre como complemento, com atrações gratuitas nas praças para o povo.
Que o mercado privado volte a respirar, com seus camarotes, seus empresários e suas bandas. Enquanto isso não acontecer, o São João da Bahia continuará sendo o que virou: uma festa política, financiada com dinheiro público para beneficiar aliados, calotear artistas honestos e esvaziar cidades inteiras. O povo merece mais. A Bahia também.
Texto de opinião. Informações baseadas em relatórios do TCE-BA, reportagens da TV Bahia, Jornal Correio e dados do Painel de Transparência dos Festejos Juninos do MP-BA.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar






















