Depois de bilhões de reais em empréstimos contraídos pelo Estado nos últimos anos, a capital baiana ficará, pela primeira vez em décadas, sem uma das suas principais festas populares em um espaço tradicionalmente ocupado pelo povo.
E não é por falta de histórico. O São João do Parque de Exposições movimentava uma cadeia econômica gigantesca. Ambulantes, motoristas de aplicativo, vendedores, montadores de palco, bandas, trabalhadores temporários, metrô, ônibus, bares e hotéis giravam a economia em torno da festa. Tirar esse evento de circulação não significa apenas cancelar shows. Significa matar renda, emprego e lazer de milhares de pessoas que não têm condições de viajar para o interior.
O mais grave é que essa decisão acontece justamente após o Ministério Público apertar o cerco sobre os cachês milionários pagos a artistas de fora da Bahia. Durante anos, o governo bancou cifras astronômicas enquanto artistas baianos acumulavam calotes. Muitos seguem sem receber até hoje por apresentações realizadas ainda no período pós-pandemia. O caso mais recente foi do cantor Kevin Jonny, que veio às redes sociais reclamar que sequer recebeu o cachê do São João do ano passado.
Agora, convenientemente, o São João do Parque desaparece sem qualquer explicação convincente. O governo não esclarece se faltou dinheiro, planejamento ou vontade política. Apenas cancela e silencia.
Enquanto isso, o Parque de Exposições segue se degradando há anos, exatamente como aconteceu com o antigo Centro de Convenções, que foi abandonado até virar ruína. A preocupação é legítima: estariam preparando o mesmo roteiro? Deixar deteriorar para depois justificar uma futura venda de uma área extremamente valorizada da cidade?
A contradição fica ainda maior quando integrantes do próprio governo afirmam que Salvador não teria capacidade para grandes eventos. Recentemente, a cidade recebeu o show do Guns N’ Roses com hotéis lotados e a Fonte Nova cheia de turistas vindos de todo o Brasil. Ou seja: público existe, demanda existe e potencial econômico também.
O que falta é prioridade.
Porque para viagens internacionais e promoção institucional no exterior aparentemente sempre há recurso. Já para manter uma festa popular histórica, pagar artistas locais e garantir entretenimento para a população, o caixa misteriosamente seca.
No fim, sobra para a iniciativa privada tentar salvar parte da tradição. Espaços alternativos começam a se movimentar para absorver o público órfão do São João. E talvez aí esteja a maior ironia: enquanto o governo recua, quem acaba segurando a cultura popular é quem coloca o próprio dinheiro em risco para manter a cidade viva.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















