Clarice Lispector será o centro das atenções na Biblioteca Parque Estadual, no coração do Rio. O evento, aberto ao público, faz parte do Projeto Parque de Ideias, criado pelo documentarista Márcio Debellian.

Na terça‑feira (14), às 16h, a jornalista, escritora e roteirista Melina Dalboni apresentará a palestra Clarice Lispector: da literatura ao teatro e ao cinema, que ela prefere chamar de conversa com o público.
Ela trará sua vivência nas diversas adaptações que fez da obra de Clarice para o longa A paixão segundo G.H. e ao escrever o livro Diário de um Filme – A paixão segundo G.H., inspirado no filme.
Melina revelou ser admiradora da autora e considerou um privilégio poder dialogar sobre Clarice dentro da Biblioteca Parque Estadual, um espaço que oferece programação de qualidade e gratuita. Para ela, Clarice está entre as maiores escritoras do mundo.
“A obra de Clarice é publicada em mais de 40 países e traduzida para mais de 30 idiomas. Embora muitos a considerem hermética, eu vejo o contrário”, afirmou Melina à Agência Brasil.
“Seus livros, contos e crônicas são acessíveis e apaixonantes porque ela propõe esse pensar‑sentir: o leitor não precisa decifrar tudo de forma cartesiana, mas abrir-se para ler e ser tocado, como se o livro fosse um espelho”, explicou.
A roteirista contou que o processo criativo liderado pelo cineasta Luiz Fernando Carvalho para a produção de A Paixão Segundo G.H. foi aberto a todos os envolvidos, da atriz Maria Fernanda Cândido à equipe de figurino, costura, roteiro, motoristas, direção de arte e estudantes de teatro.
“Todos tivemos a chance de mergulhar na obra durante uma semana de palestras com os maiores especialistas em Clarice, como Nádia Batella Gotlib, José Miguel Wisnik e Yudith Rosembaum, entre outros”, relatou.
Esse contato aprofundado com a obra, segundo Melina, motivou a escrita do livro Diário de um Filme – A Paixão Segundo G.H., publicado pela editora Rocco.
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
Espetáculo
Também hoje, às 18h, a atriz Beth Goulart apresentará o monólogo Simplesmente eu, Clarice Lispector. Em cartaz há 17 anos, já foi visto por mais de um milhão de pessoas. “É uma alegria ter essa parceria e ver o público acompanhando nosso trabalho”, disse Beth Goulart em entrevista à Agência Brasil.
Ela mesma escreveu, dirigiu e produziu a peça, recebendo o Prêmio Shell de Melhor Atriz por sua interpretação. No Projeto Parque de Ideias, o público poderá assistir ao espetáculo novamente nesta quarta‑feira (15), no mesmo horário.
Para a atriz, apresentar a peça em uma biblioteca é extraordinário. “O espetáculo incentiva a leitura, principalmente a literatura de Clarice Lispector, que, como eu digo, ‘é uma literatura muito especial que faz o leitor se conhecer, olhar para dentro e evoluir em todos os sentidos’.
“A leitura abre portas, amplia horizontes e oferece novas possibilidades de conhecimento. Fazê‑la dentro de uma biblioteca é fantástico, pois estimula o hábito da leitura em um ambiente propício. Não se trata apenas de conhecer Clarice, mas também de tantos outros autores incríveis que temos à disposição”, enfatizou.
“Uma biblioteca é um lugar mágico, repleto de possibilidades para conhecer o pensamento dos grandes criadores. É uma fonte extraordinária de aprendizado, saber e troca”, completou.
A ponte entre literatura e teatro sempre foi um objetivo de Beth, que acredita na importância de fomentar o hábito da leitura. “O teatro traz à vida a beleza da literatura, transformando a experiência solitária da leitura em um momento coletivo, que é exatamente o que o teatro propõe. É ampliar o prazer de entrar em contato com as palavras e ideias dos grandes autores”, declarou.
Parque de Ideias
Na sua quarta edição, o projeto segue até 17 de abril. Cada mês dedica uma semana da biblioteca à sua programação. Já passaram por lá cantoras como Alcione e Fafá de Belém e o cantor/compositor Neguinho da Beija‑Flor, entre outros.
Márcio Debellian, que dirigiu o documentário Fevereiros sobre o desfile da Mangueira com enredo de Maria Bethânia e a religiosidade do Recôncavo baiano, contou que a homenagem surgiu influenciado pela peça de Beth.
“É um fenômeno pelo tempo que está em cartaz, pelo público que atrai, pela qualidade da peça, do texto e da atuação premiada de Beth”, disse em entrevista à Agência Brasil.
“Para uma biblioteca pública que guarda a obra de Clarice, onde quem chega pode retirar seus livros gratuitamente, faz sentido oferecer gratuitamente a peça da Beth num teatro de 200 lugares, recém‑reformado, e ainda a aula da Melina, que adaptou Clarice para o cinema”, comentou.
O documentarista ressaltou que trabalha com um público muito heterogêneo. “Há quem já conheça a obra e tenha lido tudo, e há quem esteja descobrindo o autor, vindo ao teatro pela primeira vez, porque está próximo à Central do Brasil, é gratuito e acessível por diversos transportes”, explicou.
“É coerente que uma biblioteca acolha a peça em homenagem a Clarice e ofereça uma aula que aprofunde o universo clariceano, permitindo que as pessoas frequentem o acervo e retirem os livros”, acrescentou.
Debellian, também fã de Clarice, descreve a autora como transformadora. “Ela mudou minha vida: ao ler o primeiro livro, não consegui parar, li oito seguidos e quase perdi a razão. Marquei tudo, sublinhei, volto às prateleiras para reler. Clarice é fundamental para mim, me envolve profundamente”, revelou.
Ele acredita que Clarice conquistará quem ainda não a conhece. “As palavras são tão fortes, tão profundas, que mexem com o pensamento e a sensibilidade”, afirma.
“Você não esquece e leva isso para a vida. Ao entrar no universo de Clarice, é preciso mergulhar para entender de onde vem tanta sabedoria, clareza e impacto. Nada passa despercebido, nada é banal”, diz, entusiasmado.
Público
Debellian relatou que costuma conversar com os frequentadores da biblioteca para saber quem está chegando pela primeira vez, e sempre encontra grande diversidade.
“É um público popular e muito variado nas atividades que promovemos. Tem gente que vem de trem, de São Gonçalo, Niterói, Duque de Caxias, São João de Meriti. Sempre pergunto antes de abrir a programação”, contou.
Ele acrescenta que, devido ao desconhecimento sobre o funcionamento do espaço, gosta de alternar gêneros musicais dos convidados, atraindo públicos que ainda não conhecem o local de leitura e cultura.
“É essencial ocupar esse equipamento público para que, em futuras crises governamentais, não se pense em cortar orçamento de bibliotecas. O espaço precisa estar cheio de gente interessada, reconhecendo seu valor”.
Embora a distração dos celulares seja grande, ainda há quem prefira pegar um livro na biblioteca para ler no trajeto de transporte público. “Esse é o estímulo que buscamos. Temos realizado inúmeros encontros com autores”.
O Parque de Ideias completa quatro anos em maio. Toda a programação é gratuita e inclui oficinas, cursos em parceria com a PUC Rio e encontros que mesclam literatura, música e processos criativos.
O projeto é realizado pela Debê Produções, com patrocínio do Instituto BAT e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
Fonte

















