A recente decisão do Governo da Bahia de reconhecer o “grau” — prática de empinar motocicletas — como modalidade esportiva escancara uma contradição difícil de ignorar. Não pelo reconhecimento em si, mas pelo contexto em que ele ocorre: ausência de fiscalização efetiva, falta de estrutura adequada e um histórico de negligência com outras vertentes do esporte a motor.
Há anos, a prática do grau ocupa ruas de Salvador de forma irregular, muitas vezes diante de agentes públicos, sem que medidas consistentes fossem adotadas. O resultado previsível tem sido a ocorrência de acidentes, inclusive em eventos recentes, alguns realizados sem autorização formal de órgãos como a Polícia Militar ou o DETRAN. Ainda assim, a institucionalização da atividade avança sem que o básico — segurança, organização e controle — tenha sido plenamente estabelecido.
O contraste com o automobilismo é evidente. Modalidades como arrancada, drift e track day enfrentam um cenário de escassez crônica de apoio institucional. Praticantes lidam com exigências rigorosas, custos elevados e, principalmente, a falta de espaços adequados. Sem autódromos ou pistas estruturadas na capital, muitos são obrigados a buscar alternativas em outras cidades ou até fora do estado, elevando custos e restringindo o acesso.
A Bahia, que já sediou competições relevantes como a Fórmula Clio e etapas da Stock Car, hoje assiste a um esvaziamento do setor. Eventos que poderiam gerar emprego, renda e movimentar a economia local deixam de acontecer por falta de incentivo e planejamento estratégico.
Não se trata de opor motociclistas a entusiastas do automobilismo. A questão central é a coerência da política pública. Regulamentar uma prática que historicamente ocorre à margem da lei, sem garantir infraestrutura e fiscalização adequadas, enquanto outras modalidades seguem negligenciadas, sinaliza desorganização e prioridades questionáveis.
O esporte a motor, em suas diversas formas, demanda ambiente controlado, investimento e responsabilidade. Quando o poder público falha em estruturar esse ecossistema, abre espaço para a informalidade, para o risco e para a perda de oportunidades econômicas relevantes.
A Bahia não carece de público, nem de tradição. Falta gestão, visão de longo prazo e, sobretudo, equilíbrio nas decisões. Sem isso, o estado segue preso a um ciclo onde o improviso ganha espaço e o potencial permanece subutilizado.
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















