Coluna assinada por Siqueira Costa Júnior. O conteúdo reflete opinião pessoal do autor e não representa o editorial do site Boletim Bahia.
E ainda continuando com a novela da chapa governista, tanto na Bahia quanto no Brasil. Vamos abrir pelo cenário nacional.
Passado o Carnaval, tivemos a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Salvador, curiosamente em um dia em que uma banda baiana — que recebe apoio público — se apresentava no circuito Barra-Ondina. O timing chamou atenção. Lula chegou ao camarote justamente próximo ao horário do desfile da banda. Até aí, nada demais.
O problema veio durante a passagem do trio. Em vez do protocolo institucional — aquele cumprimento padrão a autoridades — a banda transformou o momento em um verdadeiro palanque. Houve coro puxado com o nome do presidente, palavras de ordem contra adversários políticos e manifestações explícitas de apoio. Não foi um gesto neutro. Foi campanha.
Diante disso, integrantes da sociedade já acionaram o Ministério Público pedindo a devolução do cachê pago à banda. O motivo é simples: a legislação proíbe uso de recursos públicos para promoção político-partidária. Não é inédito — em outros estados, artistas já foram obrigados a devolver valores após episódios semelhantes. Na prática, tocaram “de graça” depois do enquadramento legal. O tal “socialismo” que muitos defendem, aplicado na marra.
No dia seguinte, Lula estava no Rio de Janeiro, onde foi “homenageado” por uma escola de samba. Segundo o próprio presidente, a iniciativa partiu espontaneamente da escola. Ok, cada um faz o que quer. Mas, como sempre, o contexto importa.
Posteriormente, veio à tona que a escola recebeu cerca de R$ 9,2 milhões via governo federal. Além disso, houve encontros no Palácio do Planalto e na residência oficial com diretores da escola, a primeira-dama e pessoas próximas ao presidente. O objetivo: “conhecer melhor a história”. Na prática, alinhamento narrativo.
E aqui entra a contradição. O samba-enredo e a apresentação trouxeram elementos que batem de frente com declarações recentes de Lula na Bahia, durante o aniversário do PT, que teve baixa adesão popular. Na ocasião, ele afirmou que era preciso dialogar com pastores, destacando que cerca de 90% dos evangélicos recebem algum tipo de auxílio — e demonstrando incômodo pelo fato de esses beneficiários não votarem nele.
A leitura é direta: uma lógica de “culpa de voto”. Como se o benefício social fosse um favor pessoal e não uma política pública garantida a quem cumpre requisitos legais.
Voltando ao desfile, famílias conservadoras foram retratadas de forma caricata — desenhadas e “enlatadas”, como se fossem produtos de prateleira. Uma crítica estética? Talvez. Mas também um recado político claro.
O efeito colateral já começa a aparecer: pesquisas recentes indicam crescimento de Flávio Bolsonaro, que passa a despontar como um dos principais nomes na disputa, encostando — e em alguns cenários ultrapassando — Lula.
Na tentativa de conter o desgaste, o presidente alegou que a homenagem seria, na verdade, à sua mãe. Mas não houve qualquer representação clara dela no desfile. Nenhuma referência concreta. O foco foi político — exaltação ao presidente e ataques a adversários.
Saindo do eixo nacional e voltando para a Bahia, o cenário não é menos caótico.
Com a viagem do governador Jerônimo Rodrigues, o senador Jacques Wagner tratou de ocupar espaço e, em entrevista, praticamente “bateu o martelo” sobre a chapa governista: ele e Rui Costa para o Senado, e Geraldo Júnior no governo, mantendo “Geraldinho” como vice.
Dois dias depois, recuo. Wagner afirmou que ainda há conversas em andamento e que nada está definido. Tradução: falou demais, antes da hora.
E hoje, o próprio Jerônimo reforçou, em entrevista ao Jornal da Tarde, que a chapa está longe de estar fechada. Ainda há disputa por espaço — tanto para o Senado quanto para a vice.
Nos bastidores, cresce a leitura de fragilidade política. Há quem diga que Jerônimo não teria força suficiente para enfrentar um cenário mais competitivo, e que Lula preferiria ver Rui Costa como candidato ao governo da Bahia. Ou seja: fogo amigo, disputa interna e zero alinhamento estratégico.
Resultado? A base governista virou uma verdadeira “casa de Noca”. Todo mundo opina, todo mundo decide — e, no fim, ninguém decide nada.
A narrativa oficial tenta vender tranquilidade e controle. Mas as próprias declarações de Wagner e Jerônimo desmontam esse discurso. A reeleição, que parecia protocolar, hoje já entra na zona de risco.
E no plano nacional, o cenário também aperta. Avança uma CPI que conseguiu a quebra de sigilo de um dos filhos do presidente, ampliando o desgaste político. Lula, que antes operava como blindado, começa a assumir o papel de vidraça — cada vez mais exposto, cada vez mais vulnerável.
No fim das contas, o que se vê é um grupo político que ainda tenta projetar força, mas já opera em modo defensivo.
Como diria meu amigo Vitor Pinto, da Band: há o que se esperar.

Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.





















