Mais uma vez, a política entrou com força no Carnaval — e, dessa vez, passando do ponto.
Em menos de duas semanas, Lula esteve duas vezes em Salvador. Na primeira, para entrega de equipamentos de saúde. Na segunda, em um evento do PT, onde se cogitou lançar a pré-candidatura à reeleição. Mas a baixa adesão esfriou o plano. Também ficou no ar a dúvida sobre quem seria o vice.
Pouco depois, Lula voltou à Bahia no Carnaval. E “coincidentemente” apareceu no mesmo dia e horário em que a BaianaSystem — banda que arrasta multidões e tem público majoritariamente de esquerda — se apresentava. O que era festa virou, na prática, um ambiente de exaltação política, com cara de pré-campanha.
No Rio, a situação seguiu pela mesma linha. Uma escola de samba levou à Sapucaí um enredo favorável ao presidente, com ataques ao ex-presidente e sem qualquer contraponto. Teve deboche com conservadores e a imagem do ex-presidente como “palhaço preso”. Pode ser arte? Pode. Mas quando a mensagem vira propaganda de um lado só, a pergunta é inevitável: onde termina a cultura e onde começa a promoção política fora de hora?
E não parou no desfile. Com tudo isso acontecendo, pessoas ligadas ao PSOL e ao PCdoB estavam, segundo relatos, distribuindo papéis de pré-campanha na Sapucaí. Isso é grave. Ainda não estamos no período eleitoral para esse tipo de ação. Se havia pedido de apoio, slogans e material com intenção de voto, não estamos falando de opinião: estamos falando de irregularidade eleitoral. E, mesmo assim, nada foi coibido.
Aí entra o ponto que mais incomoda: a Justiça dos homens não prevaleceu. Em outros tempos, vimos decisões rápidas, proibições e enquadramentos. Agora, diante de sinais claros de promoção política em massa, o silêncio foi ensurdecedor.
Só que, se a lei não fez efeito, a rua respondeu de outro jeito.
No fim, o que prevaleceu foi a vergonha.
De nada adiantou dinheiro público, de nada adiantou inflar militância em rede e tentar enquadrar o Carnaval como vitrine. Quando a política tenta sequestrar a festa, a conta chega onde dói: na rua e na imagem. E foi isso que ficou. A tentativa de promover virou constrangimento, a narrativa virou fiasco, e o saldo foi simbólico e visível: uma escola rebaixada, vaia onde esperavam aplauso e a vergonha estampada para todo mundo ver.
E a pergunta continua, simples e direta:
a lei eleitoral vale para todos — ou só para alguns?
Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.






















