A antecipação do lançamento da pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Salvador não foi um movimento casual nem meramente simbólico. Foi político, estratégico e, sobretudo, defensivo. Como noticiado por diversos veículos nacionais, a decisão de antecipar a agenda ocorreu em meio às articulações internas sobre a composição da chapa, especialmente a definição do vice. Mas reduzir o gesto a isso é enxergar só a superfície.
A escolha da Bahia diz muito mais sobre o momento do PT do que sobre o calendário eleitoral. Hoje, a Bahia é o principal — e praticamente o único — pilar de sustentação do partido no país. É o último grande feudo petista em nível estadual, governado consecutivamente por Jacques Wagner, Rui Costa e agora Jerônimo Rodrigues. Nenhum outro estado oferece ao PT o mesmo grau de fidelidade eleitoral.
Embora o partido não controle a maioria das grandes cidades do interior baiano, ele mantém uma força decisiva nas pequenas e médias cidades, onde construiu, ao longo de anos, um eleitorado sólido e orgânico. É dali que sai a chamada “gordura” eleitoral, aquela margem ampla que sustenta vitórias em disputas apertadas no plano nacional.
Esse cálculo é simples e pragmático: o PT precisa da Bahia para vencer no primeiro turno. E, se houver segundo turno, precisa ainda mais para ampliar a diferença. Não por acaso, Salvador vira palco, vitrine e termômetro. O partido sabe onde está sua base real.
O desempenho recente nas eleições municipais reforça essa leitura. O PT perdeu Lauro de Freitas, cidade estratégica da Região Metropolitana, mas reconquistou Camaçari — tão relevante quanto — com a volta de Caetano ao comando do município, em uma vitória no segundo turno. Essa recuperação foi lida internamente como sinal de que ainda há terreno firme onde pisar, desde que o foco esteja correto.
O problema é que o foco ficou estreito demais. Fora da Bahia, o PT enfrenta dificuldades crescentes. O partido envelheceu politicamente, perdeu capilaridade em grandes centros e, mais grave, não conseguiu formar uma liderança nacional capaz de suceder Lula com densidade eleitoral comparável. Lula ainda é o PT. E isso, a médio prazo, é um risco.
Se o PT perder a Bahia, perde muito mais do que um estado. Perde a âncora que mantém o projeto nacional viável. Sem a Bahia, a eleição de Lula se torna extremamente complicada. E olhando além, o cenário pós-Lula é ainda mais nebuloso para o partido e para a esquerda brasileira.
Enquanto isso, o mundo político aponta noutra direção. Em diversas eleições recentes fora do Brasil, forças de direita e centro-direita voltaram ao poder com mais força do que tinham antes. Esse movimento não é isolado, nem passageiro. Ele se organiza, se comunica melhor e ocupa espaços que a esquerda deixou vagos.
Nesse contexto, a antecipação da pré-candidatura de Lula em Salvador soa menos como celebração e mais como alerta interno. É o PT reafirmando onde ainda manda, porque sabe que fora dali o terreno é instável. A Bahia não é apenas prioridade: é sobrevivência.
Essa é a leitura que fica. O PT vai concentrar esforços, recursos e discurso na Bahia não por opção ideológica, mas por necessidade política. Manter o feudo é manter o projeto vivo. Perder a Bahia seria, para o PT, o começo de um fim anunciado.

Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes. Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o divirto de expor o que penso sem ofender nem também quer dizer





















