Um país sequestrado — e ninguém quer soltar o refém
O Brasil encerrou 2025 sem fechar suas feridas. Apenas as empurrou para debaixo do tapete institucional. O que se desenha para 2026 não é um cenário de renovação, mas de continuidade de um modelo onde poder político, sistema financeiro, Judiciário e silêncio midiático operam em sincronia desconfortável.
O escândalo dos descontos ilegais em benefícios do INSS é o retrato mais cruel dessa engrenagem. Aposentados, doentes, pessoas em absoluta vulnerabilidade tiveram sua renda saqueada por uma quadrilha com tentáculos políticos evidentes. Gente com mandato, sem mandato, parentes estratégicos, operadores financeiros — todos orbitando governos passados e presentes
O Estado respondeu como sempre: notas oficiais, promessas genéricas e nenhum senso de urgência proporcional ao dano causado. Para muitos, o “ressarcimento” sequer existirá. Alguns morreram. Outros sobreviveram sem justiça. E as famílias ficaram sem direito algum. O sistema seguiu funcionando.
A grande mídia, por sua vez, escolheu o filtro. Há filhos de ex-presidente e de presidente vivendo fora do país, longe do alcance direto das instituições brasileiras. Em um caso, a narrativa é complacente; no outro, escandalizada.
O problema não é quem se critica — é quem se poupa. A indignação seletiva virou política editorial.
O caso do Banco Master aprofunda ainda mais a crise. Não se trata de um acidente financeiro, mas de um projeto. O embrião dessa operação nasce na Bahia, ainda nos tempos do chamado “crédito cesta”, amplamente denunciado por servidores públicos estaduais. Os alertas foram feitos, os prejuízos comprovados, as ações judiciais acumuladas. Nenhuma prosperou.
A Justiça baiana — sob a influência de um mesmo grupo político há três mandatos consecutivos — escolheu não ver. O banco cresceu, se espalhou pelo país e se tornou uma bomba-relógio. Quando explodiu, já era tarde.
Mais grave ainda é o envolvimento de figuras do topo do Judiciário nacional. Ministros e ex-ministros do STF, direta ou indiretamente ligados a contratos milionários com instituições financeiras acusadas de fraudes em massa, escancaram o colapso moral da Corte. O que na Lava Jato foi tratado como escândalo absoluto — contato entre juiz e partes interessadas — hoje parece relativizado quando os vínculos atingem o andar de cima.
Dois pesos, duas medidas. A toga perdeu a blindagem simbólica.
O CNJ, que deveria funcionar como instância corretiva, segue em silêncio constrangedor. Dorme em berço esplêndido enquanto decisões arbitrárias se acumulam, seja em grandes escândalos financeiros, seja na rotina penal.
Na Bahia, isso se traduz em absurdos recorrentes: criminosos reincidentes beneficiados por saidinhas, que não retornam ao sistema prisional e só reaparecem após novos crimes — inclusive assassinatos, como no caso emblemático do capitão da Polícia Militar morto após concessão irresponsável de liberdade.
Entramos em 2026 com eleições, Copa do Mundo e feriados prolongados.
O ambiente perfeito para dispersar atenção, diluir crises e manter tudo exatamente como está. A política agradece. A sociedade paga.
O brasileiro mudou o discurso, mas não o método. Conhece dezenas de políticos pelo nome, mas segue elegendo sem exigir compromisso real com investigação, punição e ruptura com o pacto de autoproteção do poder. Enquanto isso, instituições que deveriam ser pilares da República operam como escudos corporativos.
Não se trata mais de esquerda ou direita, de governo passado ou presente. Trata-se de um país sequestrado por um sistema que aprendeu a sobreviver a qualquer escândalo. E a pergunta que fica não é se o Brasil ainda tem solução — é quantos estão dispostos a sustentar o custo político de resgatá-lo.
Porque sem isso, o refém continua amarrado.
E os sequestradores seguem negociando entre si.

Sequeira Costa Júnior, 51 anos.
Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes. Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.
Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.
Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder.





















