Prefeitura sustenta o Festival da Virada, gera receita, emprego e turismo, enquanto o governo estadual se limita ao básico e capitaliza politicamente sem investir um real além do obrigatório.
Há anos, a Prefeitura de Salvador organiza e executa o Festival da Virada, hoje um dos maiores eventos de réveillon do Brasil. Um projeto robusto, profissional e financeiramente inteligente: os cachês dos artistas são pagos majoritariamente por patrocinadores, chegando a cobrir entre 90% e 100% dos custos artísticos. À prefeitura cabem a estrutura, a logística e a articulação dos serviços públicos. O resultado é claro: turismo aquecido, economia girando, empregos temporários, arrecadação crescente e projeção nacional da cidade.
O que chama atenção, negativamente, é a ausência prática do Governo do Estado da Bahia. Salvador é capital do Estado, vitrine turística e principal polo econômico baiano. Ainda assim, o governo estadual não participa do Festival da Virada de forma estratégica, institucional ou financeira. Limita-se a oferecer segurança, bombeiros e saúde — serviços obrigatórios, pagos com dinheiro público e que não configuram investimento adicional, mas dever constitucional.
Enquanto a prefeitura amplia sua atuação social, o Estado permanece inerte. Em 2024, a Prefeitura de Salvador passou a oferecer almoço gratuito aos ambulantes que trabalham no evento. Já o governo estadual, mesmo possuindo uma rede de restaurantes populares, mantém a cobrança simbólica de R$ 1 por refeição. Poderia dividir custos, ampliar atendimento e fortalecer a política social no maior evento do ano. Optou por não fazê-lo.
O mesmo vale para o transporte. A prefeitura está bancando a passagem dos ambulantes até o Festival da Virada. O governo do Estado, que frequentemente discursa sobre mobilidade urbana e transporte coletivo, poderia integrar o metrô e outros modais ao esforço, aliviando custos e garantindo dignidade aos trabalhadores. Não fez. Também poderia colaborar no acolhimento dos filhos dos ambulantes, ação já executada pela prefeitura. Novamente, ficou de fora.
O contraste fica ainda mais evidente no caso da cantora Daniela Mercury. Após decisão do Ministério Público que retirou o nome da Arena Daniela Mercury da “Canta Cidade”, houve uma ruptura política. A artista deixou de se apresentar no dia 1º de janeiro na estrutura da prefeitura. Em resposta, o Governo do Estado passou a bancar, sozinho, uma estrutura milionária no Farol da Barra, sem patrocínio privado, totalmente financiada com recursos públicos, para um único dia de show. Enquanto isso, o Festival da Virada — cinco dias de evento, com impacto econômico comprovado — segue sem um centavo de investimento estadual.
É uma equação desequilibrada. O Estado arrecada, se beneficia do fluxo turístico, do aumento no consumo, da ocupação hoteleira, do movimento em aplicativos, táxis, bares, restaurantes e comércio informal. Mas não divide custos, não constrói conjuntamente e não assume corresponsabilidade. Ganha na margem, sobre o esforço exclusivo da Prefeitura de Salvador.
A queima de fogos nos bairros é outro exemplo. Um espetáculo descentralizado, democrático, que valoriza comunidades e leva o réveillon para além da orla. Tudo 100% financiado pela prefeitura. O governo estadual, novamente, ausente.
Já passou da hora de o Governo da Bahia sair da arquibancada e sentar à mesa. Parceria não é discurso, é orçamento. Não se trata de protagonismo político, mas de gestão pública madura. Dividir custos, integrar políticas, ampliar investimentos e potencializar resultados. Uma festa maior, melhor organizada e mais inclusiva gera mais turistas, mais divisas e mais arrecadação para o Estado inteiro.
Salvador já provou que sabe fazer. O Festival da Virada colocou a cidade no topo dos destinos mais procurados do país. O governo estadual precisa decidir se continuará apenas colhendo os frutos ou se, finalmente, vai plantar junto.





















