Enquanto janeiro de 2026 promete inaugurações viárias e a nova rodoviária, imóveis estratégicos do Estado seguem largados, saqueados e sem qualquer projeto concreto de reaproveitamento.
O início de 2026 promete ser marcado por entregas importantes em Salvador. Em janeiro, está prevista a liberação do viaduto em frente ao antigo Shopping Iguatemi, hoje Shopping da Bahia, obra conjunta da Prefeitura de Salvador, que deve aliviar significativamente o gargalo viário entre a região da Avenida Tancredo Neves e o acesso à atual rodoviária. Também para janeiro, finalmente, o Governo do Estado anuncia a retirada da rodoviária atual, localizada na Tancredo Neves, com transferência das operações para a nova estrutura em Águas Claras — promessa feita há mais de dois anos e reiteradamente adiada.
O problema começa exatamente depois do corte da fita. Até agora, o Governo da Bahia não apresentou qualquer plano claro, público ou minimamente detalhado sobre o destino da área da rodoviária atual. E o histórico recente do próprio governo não autoriza otimismo.
Salvador já convive com uma sequência de áreas públicas estaduais abandonadas, degradadas e transformadas em território livre para furtos, vandalismo, usuários de drogas e tráfico. O exemplo mais emblemático está no Corredor da Vitória, uma das áreas mais valorizadas da cidade, onde o antigo Colégio Estadual Odorico Tavares, patrimônio do Governo do Estado, permanece fechado há anos. O prédio virou um foco de mato, deterioração estrutural e abandono absoluto. O Estado preferiu deixar o imóvel apodrecer a investir em revitalização, requalificação ou reaproveitamento para educação, cultura ou serviço público.
A situação se repete em outros pontos estratégicos da cidade. Ao lado da rodoviária atual, o antigo Detran, também pertencente ao Governo do Estado, é hoje um retrato da negligência administrativa. Mesmo com a existência de uma delegacia no local, o imóvel foi sistematicamente saqueado. Grades arrancadas, portas furtadas, instalações internas destruídas. O espaço é constantemente invadido por usuários de drogas e grupos que se aproveitam da ausência de vigilância efetiva e de qualquer política de preservação do patrimônio público.
Esse padrão não é exceção. É método. O que aconteceu com o antigo Centro de Convenções, o que vem acontecendo com imóveis estaduais desativados e o que já se desenha para a área da rodoviária atual segue a mesma cartilha: abandono, depredação, perda de valor, insegurança urbana e, no futuro, possível destinação nebulosa, muitas vezes abrindo espaço para especulação imobiliária a preço vil.
A retirada da rodoviária da Tancredo Neves deixará uma lacuna urbana enorme em uma região altamente valorizada e sensível. Ali já se somam o antigo hotel fechado, o Detran desativado e agora a saída da rodoviária. Sem planejamento, sem projeto anunciado e sem ação preventiva, o resultado é previsível: degradação do entorno, aumento da insegurança para moradores e transeuntes e desvalorização de uma área estratégica da cidade.
O Governo do Estado parece confortável em anunciar grandes obras novas, mas demonstra enorme dificuldade — ou desinteresse — em cuidar do que já existe. Patrimônio público não é descartável. É dinheiro da população, é ativo urbano, é responsabilidade de gestão. Manter imóveis fechados, sem uso e sem manutenção não é economia: é desperdício e, muitas vezes, convite aberto à criminalidade.
Diante desse histórico, a pergunta que se impõe é simples e direta: o que o Governo da Bahia pretende fazer com a área da rodoviária atual após sua desativação? Haverá um equipamento público? Um projeto social, cultural, educacional ou de mobilidade? Ou o roteiro será o mesmo já visto em outros imóveis estaduais, deixando o tempo, o vandalismo e o abandono fazerem o serviço sujo?
Este espaço fica aberto para que o Governo do Estado se manifeste e apresente, com clareza, prazos e orçamento, os projetos para esses imóveis. Salvador não pode continuar assistindo ao patrimônio público estadual virar ruína enquanto o discurso oficial fala em desenvolvimento e modernização. Sem gestão do que já existe, toda inauguração vira apenas maquiagem urbana.

















