O caso da professora agredida por um aluno dentro da sala de aula em Brumado, no sudoeste da Bahia, expôs mais do que um ato isolado de violência. O episódio, que gerou indignação nas redes sociais, é sintoma de uma crise mais ampla: o crescente desrespeito à figura do professor, que se manifesta tanto em agressões físicas quanto na retirada sistemática de sua autonomia pedagógica.
Levantamento realizado em 2023 pela Nova Escola e pelo Instituto Ame Sua Mente aponta que 8 em cada 10 docentes já sofreram algum tipo de agressão ou ameaça no ambiente escolar — um aumento de 20% em relação ao ano anterior. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) classifica o Brasil entre os países com os maiores índices de violência contra professores.
O problema, porém, vai além da agressão direta. Para Alisson Mustafá, presidente do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia (Sinpro-BA), trata-se de uma erosão sistemática da autoridade docente, agravada pela submissão a modelos de ensino engessados e centrados no lucro de grandes redes privadas.
“O professor perde a autonomia quando não participa da escolha do material didático, quando precisa adaptar módulos prontos e mal estruturados, quando é pressionado por direções e gestores que ignoram sua experiência e sua formação. Isso também é violência”, afirma Mustafá.
Em muitas escolas, sobretudo da rede privada, o processo de ensino-aprendizagem é engolido por um sistema padronizado que transforma o professor em executor de apostilas — excluindo-o do centro do projeto pedagógico. Esse esvaziamento da função docente, embora menos visível que o tapa registrado em vídeo, compromete o vínculo com os alunos e destrói o respeito dentro da sala de aula.
A resposta institucional tem focado apenas no sintoma. Em maio, a Comissão de Segurança Pública do Senado aprovou um projeto que obriga escolas a adotarem medidas de proteção em casos de agressões contra professores. Outro projeto, já aprovado em plenário, prevê penas mais duras para crimes cometidos no ambiente escolar. No entanto, as medidas ignoram o cerne do problema: o sequestro da autonomia docente.
O desrespeito em sala é só o espelho de uma estrutura que marginaliza o professor. A conta, inevitavelmente, será paga pelas próximas gerações.

















