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Redação Boletim Bahia por Redação Boletim Bahia
46 segundos atrás
em Bahia, Notícias
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© JoaoPinto@wondermaria2/Divulgação

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Em 1992, o jornalista Ubiratan Brasil, o Bira, compareceu ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, para assistir a uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Tratava-se de uma produção norte-americana, e o diretor do filme estava presente à exibição, mas o público era escasso.

Naquele ano, a 16ª edição da mostra chegou a São Paulo. “Fui a uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, no Masp. Se havia 16 pessoas, era muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de começar, ele elogiou o público e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão aqui dentro assistindo ao meu filme’”.

Na saída da sessão, o diretor manteve uma conversa com o público, discutindo aspectos de sua obra, embora ainda fosse um nome pouco conhecido. “Ninguém o reconhecia”, contou Bira à Agência Brasil.

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O filme era Cães de Aluguel, e o diretor, até então um desconhecido, era Quentin Tarantino. “Naquele dia, conhecemos Quentin Tarantino, que jamais voltará a ter uma exibição com apenas 16 pessoas em uma sala. A mostra trazia surpresas que, no futuro, se confirmariam”, afirmou ele.

Neste ano, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos de existência. Ao longo desse período, exibiu 11.692 filmes de 8.474 cineastas de diversos países. Nomes como Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Manoel de Oliveira, Amos Gitai e Jafar Panahi chegaram à cidade para participar do festival e apresentar seus trabalhos.

“Como muitos observam, a mostra abriu as portas do cinema mundial para nós, paulistas em especial. Os cinemas locais exibiam apenas blockbusters norte-americanos. Nunca tínhamos acesso a filmes chineses, coreanos ou cubanos. A experiência era realmente uma aventura, já que, na época, tudo era legendado em idiomas estrangeiros. Eu não falava italiano, então ficava observando as imagens e tentando decifrar a narrativa. Havia uma mistura de descobertas e ousadia, o que era fascinante”, contou Bira.

História

A primeira Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ocorreu em outubro de 1977. Organizada pelo crítico Leon Cakoff, então diretor do departamento de cinema do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a iniciativa fazia parte das comemorações dos 30 anos de fundação do museu.

Ainda com divulgação limitada e cobertura jornalística discreta, as 11 dias de exibição atraíram mais de 15 mil espectadores. Naquela edição, foram exibidos 23 filmes de 17 países, incluindo Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, cuja sessão foi amplamente elogiada.

Bira passou a acompanhar a mostra a partir de sua 4ª edição. Naquela, assistiu apenas a dois filmes: Cidade das Mulheres, de Fellini, e O Tambor, de Volker Schlöndorff. Desde então, tornou-se parte integrante da vida cultural.

“Aí comecei a seguir esse ritmo de, todos os anos, tirar férias [durante o evento], como muita gente faz até hoje”.

A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa frequenta a mostra desde sua primeira edição. “Mesmo com poucos filmes, comparados ao que se tornou, esta foi uma janela extraordinária para um mundo desconhecido. Aquele período era marcado pela ditadura e pela censura. O Cakoff superou essas limitações e aprimorou a mostra a cada ano”, disse à Agência Brasil. “Era um portal de iluminação. Quem vivia aquele momento, geralmente, retornava nos anos seguintes. Nos tempos iniciais, os filmes eram de graça”, relembra.

Para Vanda, que já assistiu sete filmes em uma única edição, a mostra é também “uma usina de ideias”, contribuindo para a formação de profissionais do cinema.

“Vários ‘mostreiros’ [frequentadores do festival] se profissionalizaram como diretores ou críticos. Até 2000, o acesso à internet era restrito. Então, o diferencial da mostra era oferecer filmes fora do mainstream. Ela era um canal para conhecer imagens, linguagens e comportamentos de outras culturas, principalmente para desenvolver uma percepção crítica além da tela”, explicou.

Além disso, destacou Vanda, a mostra ajudou a formar novos públicos por meio de sessões gratuitas ou realizadas em periferias, e se transformou em uma grande confraternização, permitindo o encontro de cinefilos. “Todo ano, faço questão de organizar um jantar ou almoço [para amigos]. Mas isso sempre após a mostra, pois durante a programação, ninguém quer sair. Virou uma espécie de reunião de afeto”, comentou.

Para Bira, outra característica marcante desse festival é a oportunidade de assistir a um filme em um cinema real. “As pessoas estão acostumadas a ver filmes em casa, em televisão, celular ou tablet. A experiência de ir ao cinema está se tornando rara. Na mostra, você tem a chance de descobrir uma obra nova, um cineasta diferente, tudo em uma sala de cinema”, destacou.

Sem interrupções

Desde sua criação, a mostra nunca foi cancelada. Não mesmo durante os anos de pandemia e fechamento de salas, quando se reinventou para oferecer exibições online ou em formatos de drive-in.


Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho
Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho

Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho

Teve anos de grande expressão, com mais de 460 filmes em uma única edição, e outros de menor escala devido a dificuldades de patrocínio. Mesmo assim, manteve-se ativa. “O segredo da mostra está em sua elasticidade. Pode ser gigante ou modesto, como neste ano de 50 anos de comemoração, mas também pequena quando necessário. É preciso saber acompanhar a música”, disse Renata de Almeida, diretora da Mostra, em entrevista à Agência Brasil.

Neste ano de 50 edições, a mostra exibirá 380 filmes de 93 países. Como forma de celebração, apresentará exposições, shows, debates e lançamentos de uma plataforma de acervo e livros, incluindo Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra, escrito por Renata de Almeida. “É uma obra sobre as histórias da mostra, mas também sobre minha vida e as que vivi durante ela. É um livro de encontros e um retrocesso para entender como as coisas evoluíram ao longo do tempo”.

Sua história com o evento começou em 1989, na 13ª edição. “Estou há 37 anos envolvida com isso”, afirma. “Primeiro como trabalho, depois como diversão e hoje como parte da minha vida. Tudo junto, não dá para separar o que é uma coisa ou outra”.

 



Fonte

Redação Boletim Bahia

Redação Boletim Bahia

A Redação Boletim Bahia é formada por jornalistas e colaboradores comprometidos em informar com responsabilidade, agilidade e independência. Com foco nos principais acontecimentos da Bahia e um olhar atento para as pautas locais, buscamos ampliar vozes, fiscalizar o poder e valorizar histórias que impactam a vida da população.

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