As marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados, considerado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como o crime mais grave já praticado contra a humanidade, são denunciadas pela obra O Barco, que pode ser visitada a partir desta terça-feira (22) no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Durante cerca de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias em colônias de nações europeias, crime que persistiu mesmo após a independência de algumas delas.
O Brasil foi o principal destino desses escravizados. Por meio de violência e navios negreiros, mais de 4,8 milhões de escravizados atravessaram o Atlântico para o trabalho forçado no Brasil.
E é isso que nos lembra a obra da artista portuguesa Grada Kilomba, que lança uma provocação ao público: o que o fundo do oceano nos diria se fosse esvaziado de água hoje?
“O Barco mostrará aquilo que estava no fundo de muitos navios nos monumentos da Europa e América Latina, que glorificam uma história como descoberta, expansão, algo romântico e glorioso. Como artista, me interessa questionar a glória e o que esses navios traziam no fundo”, disse a artista à Agência Brasil.
“Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra revelariam trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em repetição da violência cíclica”.
A obra escultórica e performática de Grada Kilomba é composta por 134 blocos de madeira queimada, distribuídos em 220 metros quadrados, com extensão de 32 metros.
A peça desenha a silhueta do fundo de uma embarcação, revelando a arquitetura do espaço nos porões dos navios negreiros, onde milhões de africanos foram acondicionados.
O Barco resulta de pesquisas em botânica, história e travessias transatlânticas, inspirado na tragédia de Antígona, onde Etéocles e Polinices são mortos após disputa pelo poder em Tebas. Segundo a mitologia, Creonte ordena o enterro de Etéocles com honrarias, mas proíbe o de Polinices.
“Esta obra [O Barco] questiona quem pode ser enterrado, lembrado ou celebrado, e quem não. Não é por acaso que histórias são esquecidas e proibidas de serem recordadas, pois isso produz memória”, explicou a artista.
Para Kilomba, o oceano é um espaço de sepultamento de vidas perdidas, incluindo escravização, colonialismo, guerras e migrações forçadas.
“Este barco leva não só ao passado. Navios atuais continuam a atravessar as águas, trazendo corpos ao fundo do mar em repetição de violência”.
Poemas
Obra de grandes dimensões, O Barco foi adaptada para caber no galpão do Sesc Pompeia.
“Interessante trabalhar a narrativa de navios que não chegam inteiros, como hoje os navios deixam um lugar para outro e não retornam completos. Parte da obra é invisível aqui, pois é maior do que o espaço”.
Embora não completa, a obra inclui 18 blocos centrais com um poema gravado em dourado, escrito pela artista e traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe. “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”, dizem os versos.
“Esta obra é o inconsciente da nossa história. A escravidão europeia está invisível, não documentada ou estudada. Trabalho o invisível do imaginário coletivo”, afirmou a artista.
Para Kilomba, o objetivo é “mostrar como a identidade moderna e europeia foi construída sobre violência, transformando africana em mercadoria que financiou impérios e riquezas”.
“Quando a história não é contada, a barbárie repete-se”, lembrou a artista.
Itinerância
O Barco foi exposto em Lisboa e Londres, chegou ao Brasil no Instituto Inhotim (Minas Gerais) por 28 meses, e agora está em São Paulo. “É bonito fazer uma itinerância pelo Brasil, entre espaços arquitetônicos”, disse a artista.
No Sesc Pompeia, a obra é exibida com Opera to a Black Venus (videoinstalação) e Compressed Time (instalação).
A exposição, criada pelo Instituto Inhotim, é gratuita e permanecerá até 25 de outubro no Espaço Galpão do Sesc Pompeia.
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