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Instalação no Sesc Pompeia denuncia marcas do tráfico de escravizados

Redação Boletim Bahia por Redação Boletim Bahia
31 minutos atrás
em Bahia, Notícias
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Instalação no Sesc Pompeia denuncia marcas do tráfico de escravizados

© Paulo Pinto/Agência Brasil

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As marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados, considerado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como o crime mais grave já praticado contra a humanidade, são denunciadas pela obra O Barco, que pode ser visitada a partir desta terça-feira (22) no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Durante cerca de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias em colônias de nações europeias, crime que persistiu mesmo após a independência de algumas delas.

O Brasil foi o principal destino desses escravizados. Por meio de violência e navios negreiros, mais de 4,8 milhões de escravizados atravessaram o Atlântico para o trabalho forçado no Brasil.

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E é isso que nos lembra a obra da artista portuguesa Grada Kilomba, que lança uma provocação ao público: o que o fundo do oceano nos diria se fosse esvaziado de água hoje?

“O Barco mostrará aquilo que estava no fundo de muitos navios nos monumentos da Europa e América Latina, que glorificam uma história como descoberta, expansão, algo romântico e glorioso. Como artista, me interessa questionar a glória e o que esses navios traziam no fundo”, disse a artista à Agência Brasil.

“Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra revelariam trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em repetição da violência cíclica”.

A obra escultórica e performática de Grada Kilomba é composta por 134 blocos de madeira queimada, distribuídos em 220 metros quadrados, com extensão de 32 metros.

A peça desenha a silhueta do fundo de uma embarcação, revelando a arquitetura do espaço nos porões dos navios negreiros, onde milhões de africanos foram acondicionados.


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil

O Barco resulta de pesquisas em botânica, história e travessias transatlânticas, inspirado na tragédia de Antígona, onde Etéocles e Polinices são mortos após disputa pelo poder em Tebas. Segundo a mitologia, Creonte ordena o enterro de Etéocles com honrarias, mas proíbe o de Polinices.

“Esta obra [O Barco] questiona quem pode ser enterrado, lembrado ou celebrado, e quem não. Não é por acaso que histórias são esquecidas e proibidas de serem recordadas, pois isso produz memória”, explicou a artista.

Para Kilomba, o oceano é um espaço de sepultamento de vidas perdidas, incluindo escravização, colonialismo, guerras e migrações forçadas.

“Este barco leva não só ao passado. Navios atuais continuam a atravessar as águas, trazendo corpos ao fundo do mar em repetição de violência”.

Poemas

Obra de grandes dimensões, O Barco foi adaptada para caber no galpão do Sesc Pompeia.

“Interessante trabalhar a narrativa de navios que não chegam inteiros, como hoje os navios deixam um lugar para outro e não retornam completos. Parte da obra é invisível aqui, pois é maior do que o espaço”.

Embora não completa, a obra inclui 18 blocos centrais com um poema gravado em dourado, escrito pela artista e traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe. “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”, dizem os versos.


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil

“Esta obra é o inconsciente da nossa história. A escravidão europeia está invisível, não documentada ou estudada. Trabalho o invisível do imaginário coletivo”, afirmou a artista.

Para Kilomba, o objetivo é “mostrar como a identidade moderna e europeia foi construída sobre violência, transformando africana em mercadoria que financiou impérios e riquezas”.

“Quando a história não é contada, a barbárie repete-se”, lembrou a artista.


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil

Itinerância

O Barco foi exposto em Lisboa e Londres, chegou ao Brasil no Instituto Inhotim (Minas Gerais) por 28 meses, e agora está em São Paulo. “É bonito fazer uma itinerância pelo Brasil, entre espaços arquitetônicos”, disse a artista.

No Sesc Pompeia, a obra é exibida com Opera to a Black Venus (videoinstalação) e Compressed Time (instalação).

A exposição, criada pelo Instituto Inhotim, é gratuita e permanecerá até 25 de outubro no Espaço Galpão do Sesc Pompeia.


Fonte

Redação Boletim Bahia

Redação Boletim Bahia

A Redação Boletim Bahia é formada por jornalistas e colaboradores comprometidos em informar com responsabilidade, agilidade e independência. Com foco nos principais acontecimentos da Bahia e um olhar atento para as pautas locais, buscamos ampliar vozes, fiscalizar o poder e valorizar histórias que impactam a vida da população.

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