Na política baiana, há momentos em que o barulho denuncia insegurança, e outros em que o silêncio revela caráter. O episódio envolvendo os senadores Ângelo Coronel e Otto Alencar escancarou exatamente isso.
Otto Alencar, antes mesmo de qualquer movimento público de Ângelo Coronel, subiu ao palanque falando em “trairagem”. Termo forte, pesado, típico de relações rompidas entre aliados íntimos. Segundo o próprio Otto, uma parceria de mais de 20 anos. O problema é que a memória política não aceita recortes convenientes.
Porque, se houve trairagem, ela começou quando Otto preferiu garantir espaços estratégicos para o filho no TCM e para o genro no TJ, amarrando dois órgãos de controle do Estado a interesses familiares diretos. Uma jogada de proteção pessoal clássica, que deixou o governo — presente ou futuro — refém dessa engenharia. No meio disso tudo, Ângelo Coronel foi abandonado à própria sorte, jogado ao mar sem boia.
Rui Costa e Jacques Wagner fecharam mais uma vez a chapa puro-sangue. O PT repetindo o seu modus operandi: usa aliados enquanto são úteis e depois os larga a quilômetros da costa. Quem sabe nadar, chega. Quem não sabe, vira estatística. Foi assim com Lídice da Mata. E agora tentam repetir o roteiro com Ângelo Coronel.
A diferença é que Coronel não reagiu com ressentimento. Quando Otto Alencar enfrentou um grave problema cardíaco e precisou implantar um marca-passo, Ângelo Coronel suspendeu sua agenda de campanha. Nenhuma nota agressiva. Nenhuma indireta. Apenas respeito. Postura rara. Gesto de homem público que separa disputa política de humanidade.
Esse silêncio diz mais do que mil discursos. Mostra caráter, hombridade e maturidade política. No fim das contas, quem perdeu foi o grupo que abriu mão de alguém que ainda cumpre palavra e respeita adversários.
E, enquanto essa disputa de narrativas acontece, outro ponto chama atenção — e causa estranheza.
Já estamos em fevereiro, caminhando para a metade do mês, e o suposto candidato do PL ao Senado, o ex-ministro João Roma, simplesmente não entrou em campo. Acompanhando redes sociais e movimentações políticas, o que se vê é muito mais engajamento na campanha da deputada federal Roberta Roma, que busca a reeleição, do que qualquer sinal consistente de uma pré-campanha ao Senado.
João Roma não é novato. Tem articulação, conhece Salvador, conhece o interior, circulou pela Prefeitura, foi ministro, tem trânsito político. Mas, até agora, não se vê agenda intensa, corpo a corpo, articulação visível, nem o mínimo de sinalização de que a candidatura ao Senado esteja sendo tratada como prioridade estratégica.
Na política, ausência também comunica. E comunica muito.
Enquanto Ângelo Coronel mostra presença com atitudes, mesmo no silêncio, João Roma parece ainda decidir se entra ou não no jogo. E eleição não espera. O tempo político é implacável com quem hesita demais.
No fim, fica a reflexão que atravessa toda essa conjuntura:
num ambiente onde muitos gritam “traição” para esconder escolhas próprias, quem demonstra caráter costuma falar menos — e agir mais.

Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.
Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.
Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.
Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.





















