Cientista político compara ciclos eleitorais desde 2018, destaca força da polarização entre PT e PL e afirma que Lula chega ao mesmo período da campanha com desempenho inferior ao de 2022
A pouco mais de duas semanas do primeiro turno, o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda classificou a eleição de 2026 como uma das disputas mais acirradas do atual ciclo democrático brasileiro. A avaliação foi apresentada nesta segunda-feira (21), durante jantar promovido pela Associação Comercial da Bahia (ACB), em parceria com o LIDE Bahia e o portal Política Livre, no Palacete Tirachapéu, em Salvador.
Com base em séries históricas, pesquisas eleitorais e gráficos comparativos, Lavareda fez uma leitura das eleições presidenciais desde 2018 e também das disputas estaduais, destacando uma tendência de redução das diferenças entre os principais candidatos. Segundo ele, as eleições brasileiras vêm incorporando um padrão de disputas mais apertadas, fenômeno que também aparece em diferentes estados.
“Todas as eleições da Nova República, tivemos nove eleições até o momento, foram bastante disputadas e essa não é diferente”, afirmou Lavareda durante o encontro.
A ruptura provocada por 2018
Na análise histórica apresentada pelo cientista político, a eleição de 2018 ocupa papel central para compreender o atual cenário. Lavareda classificou aquele pleito como uma “eleição crítica”, marcada por uma mudança expressiva no comportamento do eleitorado e pela ruptura de padrões que vinham predominando desde a redemocratização.
A eleição daquele ano levou Jair Bolsonaro ao segundo turno e marcou a ascensão de uma nova força no campo da direita, interrompendo a sequência de disputas presidenciais em que PT e PSDB ocupavam posições centrais na polarização nacional. Para Lavareda, compreender 2026 exige levar em consideração aquela mudança estrutural do eleitorado.
Em 2026, a polarização volta a se concentrar em dois grandes polos. De um lado, Lula representa o PT e o campo da esquerda. Do outro, Flávio Bolsonaro representa o PL e o campo bolsonarista. Ao mesmo tempo, candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury disputam espaço no campo da direita e da centro-direita.
Lavareda chamou atenção justamente para essa configuração. Segundo ele, esta pode ser a primeira eleição da Nova República em que a esquerda chega ao pleito com apenas um candidato efetivamente competitivo, enquanto os demais nomes com alguma relevância eleitoral estão posicionados à direita.
Lula chega mais fraco que em 2022
Um dos pontos centrais da exposição foi a comparação entre o desempenho atual de Lula e aquele registrado no mesmo período da eleição de 2022.
Questionado sobre o comportamento do eleitorado nordestino e sobre um possível enfraquecimento do lulismo na região, Lavareda afirmou que o presidente apresenta hoje desempenho inferior ao registrado quatro anos atrás. O especialista, entretanto, ponderou que a tendência ainda precisa ser confirmada pela evolução da campanha.
Pesquisas recentes mostram que o Nordeste continua sendo a região em que Lula apresenta suas maiores taxas de intenção de voto, mas também apontam uma disputa mais competitiva do que em ciclos anteriores. Levantamento Datafolha divulgado em julho, por exemplo, registrava Lula com 62% contra 29% de Flávio Bolsonaro na região. Ao mesmo tempo, análises recentes apontam mudanças no comportamento de segmentos do eleitorado nordestino e maior presença de candidatos de direita.
Na avaliação apresentada por Lavareda, portanto, o Nordeste continua sendo decisivo para Lula, mas já não pode ser tratado como um território eleitoral imune a mudanças.
A vantagem de quem está no governo
Outro ponto abordado durante o jantar foi a chamada “vantagem do incumbente”, conceito utilizado pela ciência política para definir a capacidade de um presidente em exercício utilizar políticas públicas e ações governamentais durante a campanha.
Lavareda citou, entre outros exemplos, o reajuste do Bolsa Família anunciado pelo governo federal. Para o cientista político, medidas dessa natureza demonstram que o presidente candidato à reeleição possui instrumentos que os adversários não têm.
O especialista afirmou que esse movimento revela preocupação com a disputa eleitoral e ocorre em um momento de forte competição entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo Lavareda, o cenário nacional está, neste momento, próximo de um empate técnico.
Bolsonaro e a eleição de 2022
A análise também retomou a eleição de 2022 e o desempenho de Jair Bolsonaro, que se tornou o primeiro presidente brasileiro, desde a redemocratização, a disputar uma reeleição e não conseguir permanecer no cargo.
Lavareda já havia analisado, ainda durante a campanha de 2022, que a condução da pandemia de Covid-19 havia prejudicado a avaliação do governo Bolsonaro. Na ocasião, afirmou que o ex-presidente teria tido uma oportunidade maior de ampliar sua capacidade eleitoral caso tivesse adotado outra postura diante da pandemia.
A avaliação feita naquela eleição estava diretamente relacionada aos índices de aprovação e desaprovação do governo. No levantamento Ipespe de dezembro de 2021, por exemplo, a desaprovação de Bolsonaro chegava a 65%, enquanto a aprovação estava em 30%.
O resultado de 2022 acabou consolidando a alternância entre os dois polos que hoje voltam a se enfrentar, agora representados por Lula e Flávio Bolsonaro.
Segundo turno pode concentrar ainda mais a disputa
A possibilidade de segundo turno também foi tratada como um dos principais elementos da eleição deste ano. Pesquisas recentes mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro em diferentes cenários.
Na pesquisa Quaest divulgada em agosto, Lula aparecia com 38% no primeiro turno contra 31% de Flávio. No segundo turno, os dois estavam tecnicamente empatados, com 43% para Lula e 40% para Flávio.
Já levantamentos realizados posteriormente mostraram um quadro ainda mais apertado. Na pesquisa Datafolha divulgada em setembro, Lula tinha 39% e Flávio 36% no primeiro turno. No cenário de segundo turno, os números também indicavam uma disputa competitiva.
Outro levantamento, do instituto Gerp, divulgado em 17 de setembro, apontou Flávio com 50% contra 43% de Lula em uma simulação de segundo turno. O dado, contudo, contrasta com outros institutos, mostrando justamente a volatilidade do cenário e a importância de considerar metodologia, período de campo e margem de erro de cada pesquisa.
Uma nova configuração da política brasileira
A leitura apresentada por Antonio Lavareda deixa uma questão de longo prazo para além da eleição de outubro: a capacidade de renovação das forças políticas brasileiras.
Enquanto a esquerda chega ao pleito nacional concentrada em Lula, o campo da direita apresenta uma quantidade maior de candidaturas com diferentes perfis e projetos. Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury disputam espaço em uma eleição que, segundo Lavareda, tende a ser marcada por maior fragmentação antes da consolidação do segundo turno.
Para o cientista político, a dinâmica atual é consequência de transformações iniciadas em 2018, quando o eleitorado rompeu padrões que pareciam consolidados e abriu espaço para uma nova configuração da disputa presidencial.
A leitura feita pelo Boletim Bahia, a partir dos dados apresentados no encontro, é que uma eventual saída de Lula do cenário presidencial abriria uma nova etapa para a esquerda brasileira, que precisaria encontrar um nome nacional capaz de ocupar o espaço construído pelo petista ao longo de décadas.
Nesse cenário, a disputa de 2026 não representa apenas uma eleição entre dois candidatos. Ela também pode definir como ficará organizada a política brasileira nos próximos ciclos eleitorais, especialmente diante da fragmentação da direita, da concentração da esquerda em torno de Lula e da força que PT e PL continuam exercendo na disputa nacional.
Com quinze dias de campanha pela frente, porém, Lavareda ressaltou que propaganda eleitoral, debates e acontecimentos políticos ainda podem alterar o comportamento do eleitor. “É importante lembrar que a propaganda na TV e no rádio, na TV aberta, atinge mais de 100 milhões de brasileiros”, afirmou.
















