Desde o lançamento de Relato de um Certo Oriente, a memória se torna um foco central nas investigações do escritor manauara Milton Hatoum. Com Dança de Enganos, publicado no final do ano passado e que encerra sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, o padrão se mantém.
O romance baseia-se nas memórias e anotações de Lina, mãe de Martim, protagonista dos outros dois volumes da série: A Noite da Espera e Pontos de Fuga.
Em Dança de Enganos, Lina assume a voz principal para revelar as dores, impactos e traumas de famílias desgarradas pela ditadura militar.
“Na literatura, a memória é essencial. Functiona como uma musa para os escritores. No entanto, ela não está fixada no passado. Só ganha sentido na literatura – e na vida – quando trazida ao presente, assumindo um peso maior. Isso porque tudo o que vivemos hoje está ligado ao nosso passado, não apenas recente, mas também distante”, afirmou o autor em entrevista à imprensa, antes de participar de uma mesa promovida pela Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador.
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Na trilogia O Lugar Mais Sombrio, Hatoum aborda os dramas familiares no contexto da ditadura militar brasileira.
“A trilogia trata, principalmente, a trajetória de jovens que, enfim, completam a infância, a juventude e parte da vida adulta em um período marcado por opressão, autoritarismo, brutalidade, repressão e censura. Embora esse tema histórico esteja presente nos três romances, não é o foco central da obra”, explicou o escritor.
O tema central, ressaltou, é a relação familiar.
“Esse último volume é um livro de memórias, justamente no qual Lina revela sua história, a família e descobre detalhes surpreendentes – e por isso o título é Dança de Enganos. Sua vida foi movida por enganos, e apenas a memória, presente na literatura, lhe permite compreender sua própria essência”, disse.
Academia de Letras
Milton Hatoum é um dos escritores mais influentes da literatura brasileira contemporânea e recentemente assumiu sua vaga como membro da Academia Brasileira de Letras.
“De forma inusitada, sou o primeiro escritor da Amazônia a integrar a Academia. No entanto, continuo com as mesmas práticas há mais de 35 anos: ministrar palestras, debater literatura, ler inúmeros livros e escrever com periodicidade”, disse.
Vencedor de diversos prêmios e citado em listas de apostas para o Nobel de Literatura, sua presença na Flipelô lotou o auditório do museu. Ele iniciou sua fala destacando que sua trilogia foi escrita como um ato de resistência à repressão histórica no Brasil.
“Foi também uma vingança. Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou lutou contra a ditadura, perdeu amigos, teve companheiros presos ou sofreu torturas, deixou marcas profundas”.
O escritor revelou que utilizou diários e relatos de amigos que sofreram prisões e torturas durante o regime. “Mas, apesar de encontrar relatos extremamente duros, optei por incorporar poucos elementos diretos da pesquisa. Afinal, o romance depende da imaginação como seu pilar principal.”
Parte da trilogia, complementou, reflete seu posicionamento diante do ressurgimento de discursos autoritários no Brasil. “Modifiquei significativamente o segundo e o terceiro volumes, ao reescrever elementos diante da atual catástrofe política. Como poderia classificar essas pessoas? São absolutamente facínoras.”
Para ele, a empatia é um remédio para a crise atual. “Ela contrapõe-se ao egotismo, integrando necessidades individuais ao coletivo. É dessa conexão que falta tanto no contexto atual”, reflexão.
Educação
Na Flipelô, Hatoum enfatizou a importância da educação. “O desmonte da escola pública começou com a ditadura. Hoje, reconstruí-la seria um ato patriótico, de formação cidadã e igualdade”, afirmou. Ele citou sua professora, Maria Luiza Freitas Pinto, que o alfabetizou, lembrando-a de ter guardado sua primeira redação até os 104 anos: “Ela disse que iria me mostrar algo. Tirou um papel amarelo, desdobrou e revelou: ‘Essa é a sua primeira redação. Eu guardei porque acredito que você se tornaria um escritor’.”
A décima edição da Flipelô iniciou-se na última quarta-feira (5) e encerra-se neste domingo. Acesse o site para mais informações.
*Repórter e fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.
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