Em 1986, o indigenista e cineasta Vincent Carelli criou um projeto de capacitação audiovisual e formação de cineastas indígenas. Chamado de Vídeo nas Aldeias, a iniciativa revolucionou a produção audiovisual indígena, promovendo os primeiros contatos dos indígenas com suas próprias imagens e transformando a câmera em um importante instrumento de memória, valorização e resistência para os povos originários.

Aos 40 anos, o projeto reuniu mais de 70 filmes que documentam as populações indígenas do país, produzidos em colaboração com mais de 40 povos.
Segundo o próprio Vincent Carelli, esse acervo contém mais de 4 mil horas de gravação analógica e “outras tantas de digital nativo”.
Mas, apesar de sua importância, Carelli destacou que o acervo está ameaçado.
“Para que museu isso iria? Qual instituição poderia fazer esse trabalho de acesso a conteúdos específicos? Instituições públicas são mal financiadas e não estão preparadas para lidar com acervos digitais, que é uma coisa muito mais cara do que guardar fitas”, questionou durante uma aula no festival Bonito CineSur, que encerrou neste sábado (01) em Bonito (MS).
Para Daniela Siqueira, professora da graduação em audiovisual da UFMS, a preocupação de Carelli reforça a necessidade de políticas públicas para preservar o patrimônio audiovisual brasileiro. “O Estado brasileiro, sim, tem pensado mais na preservação, mas precisamos equilibrar os investimentos na produção com os destinados à preservação. No limite, em 20 anos, o Estado perderá o dinheiro investido em produção audiovisual”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Daniela destacou que a preocupação com acervos aumentou com a produção digital, mais cara e difícil de preservar. “Antes, os filmes eram armazenados em espaços físicos. Hoje, exigem nuvens, HDs externos e servidores, o que é mais oneroso”, explicou.
Além disso, alertou sobre a obsolescência do digital: “Não é que você compra um servidor e ele dura décadas. Ele tem vida limitada”, completou.
Para equilibrar custos, defende igualar recursos entre produção e preservação. “Quando não equilibramos a preservação, jogamos dinheiro e patrimônio fora”, ressaltou.
Vídeo nas Aldeias
Além de capacitar as comunidades indígenas com equipamentos de vídeo e gerar um acervo documental, o projeto também elevou a visibilidade e reconhecimento das lutas e culturas indígenas. “Esses filmes viraram carteiras de identidade”, define Carelli.
“Os povos indígenas eram isolados. Mas ao apresentar os vídeos de uma etnia para outras, descobriam culturas diferentes”, explica.
O projeto, acrescenta, criou novas dinâmicas nas aldeias, unindo gerações. “A câmera obrigava os jovens a registrar o cotidiano e buscar os mais velhos, gerando encontros intergeracionais”, destaca.
Para Daniela, o projeto é um “enclave” na história brasileira, permitindo debates sobre produção de imagens e trazendo a luta indígena à pauta social. “Quando os filmes circularam nas escolas e festivais a partir dos anos 2000, a sociedade pôde se relacionar com os indígenas por meio do cinema”, afirma.
Carelli observa que hoje o cinema não é o principal meio de construção: “Surgiu a categoria de comunicadores indígenas, que usam redes sociais para escancarar a visibilidade”.
* A repórter viajou a convite do Bonito CineSur
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