Quase metade das crianças e adolescentes no planeta, cerca de 1,1 bilhão de pessoas, enfrenta ao menos três riscos climáticos que ameaçam sua saúde, educação e sobrevivência.

Essas conclusões constam no Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, elaborado pela UNICEF e divulgado nesta segunda‑feira (15).
De acordo com a pesquisa, praticamente todas as crianças do mundo enfrentam ao menos um risco climático, e mais de 4 milhões podem estar sujeitas a até seis ameaças diferentes.
“No Brasil, 16 milhões de crianças estão expostas a três ou mais riscos climáticos, como ondas de calor ou secas – o equivalente a 3 em cada 10 meninos e meninas brasileiras. Quando consideramos duas ou mais ameaças, mais de 30 milhões de crianças e adolescentes (6 em cada 10) convivem diariamente com esses perigos”, aponta o relatório.
O estudo utiliza os dados mais atualizados para mapear a exposição de crianças e adolescentes às oito ameaças climáticas mais comuns globalmente: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes fluviais, tempestades de areia e poeira e tempestades tropicais.
Pela primeira vez, o relatório indica exatamente onde e com que intensidade múltiplas ameaças climáticas afetam crianças e os serviços públicos essenciais de que dependem, além de sugerir como os governos podem implementar ações concretas para enfrentar esse panorama.
Conforme a diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell, a vida das crianças continua profundamente abalada por ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes.
Seca, calor extremo e ondas de calor constituem a combinação mais frequente de riscos climáticos, atingindo mais de 296 milhões de crianças e adolescentes. A segunda combinação mais comum – seca, calor extremo e tempestades tropicais – afeta mais de 115 milhões de crianças em todo o mundo.
Na região do Sahel, na África, mais de 4 milhões de crianças confrontam a tríade de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira, uma das áreas mais atingidas.
Em países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão, as crianças estão expostas a um número maior de ameaças climáticas e com maior intensidade que em qualquer outro lugar.
Nações de alta renda também sofrem impactos. Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças e adolescentes enfrentam ondas de calor prolongadas e secas.
Além das oito ameaças climáticas principais, o relatório analisa a exposição de crianças à poluição do ar e à malária, riscos altamente sensíveis às mudanças climáticas. Os dados revelam que a poluição do ar afeta quase todas as crianças do planeta, enquanto 1 bilhão de meninos e meninas está exposto à malária, acrescentando um risco extra àqueles que já lidam com múltiplas ameaças climáticas.
No Brasil, a situação é parecida: quase todas as crianças e adolescentes (95%, ou 47 milhões) estão expostos à poluição do ar. Mais 5,6 milhões (11% da população infantil) enfrentam risco de malária.
“Sem ações urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, as ameaças climáticas se tornarão mais frequentes e intensas, pressionando ainda mais os orçamentos públicos, os sistemas governamentais e comprometendo o bem‑estar das crianças”, alerta o relatório.
Para proteger os direitos das crianças e enfrentar a crise climática, a UNICEF recomenda:
- Reduzir as emissões e adotar medidas ambiciosas para cumprir acordos internacionais, incluindo a eliminação gradual de combustíveis fósseis e uma transição justa para energias renováveis;
- Proteger crianças e adolescentes por meio de adaptação climática inclusiva;
- Diminuir riscos de desastres e estabelecer respostas de perdas e danos que tornem os serviços públicos essenciais resilientes;
- Garantir que políticas fundamentais para crianças estejam inseridas nos planos nacionais de adaptação, nas estratégias setoriais, na governança de risco de desastres e nos planos de preparação e resposta;
- Construir escolas seguras e verdes e unidades de saúde resilientes ao clima;
- Assegurar a segurança alimentar das crianças;
- Tornar os sistemas de alerta precoce eficazes para crianças e acessíveis aos serviços dos quais dependem;
- Fortalecer a eficiência dos serviços de água e saneamento, bem como dos sistemas de proteção social responsivos a emergências;
- Capacitar crianças e jovens para participar ativamente da ação climática, investindo em educação e habilidades climáticas;
- Ampliar a capacidade de tomadores de decisão e especialistas de respeitar os direitos das crianças de serem ouvidas, expressarem-se e participarem das decisões que afetam suas vidas.
“Este estudo pode auxiliar governos e decisores a planejar melhor e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes”, afirmou Catherine Russell.
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