Na quinta‑feira (11), a África do Sul abre sua participação na Copa do Mundo contra o México, partida marcada para as 16h na Cidade do México, capital do país co‑organizador do torneio ao lado de Canadá e Estados Unidos. 

>> Jogando em casa, México é o grande destaque do Grupo A da Copa
Assim como a seleção brasileira, a equipe sul‑africana entrará em campo vestida de verde e amarelo. Mas as semelhanças entre os dois países ultrapassam a escolha das cores. Brasil e África do Sul compartilham traços socioeconômicos e políticos, além de defender posições alinhadas no cenário internacional, como a busca pela paz.
No futebol, a Seleção sul‑africana figura entre as favoritas do ex‑técnico Joel Santana. Em entrevista à Agência Brasil, ele afirmou que, após um jejum de dez anos, os “Bafana Bafana” apresentaram um futebol de nível técnico crescente.
“Depois que nós, brasileiros, fomos lá, o nível do futebol deles tem subido gradativamente”, declarou Joel, que comandou a equipe entre 2008 e 2009. “Vou apostar neles até o final”, acrescentou.
Cooperação com o Brasil
Fora dos gramados, os sul‑africanos buscam parceiros, não rivais, como disse o presidente Cyril Ramaphosa. Em encontro com o presidente Lula, em março, em Brasília, ele manifestou a intenção de ampliar os laços com a América Latina, iniciando por cooperações econômicas com o Brasil.
“Deveríamos [Brasil e África do Sul] cooperar em um nível muito mais alto”, declarou na época. “Somos os dois países mais industrializados de nossos continentes, e o comércio entre nós precisa ser muito maior”, afirmou Ramaphosa.
Para a África do Sul, é essencial atuar conjuntamente em setores como agricultura, pecuária, energia, mineração e defesa. Lula ressaltou que o intercâmbio anual entre os dois países está estagnado há quase duas décadas, girando em torno de US$ 2,3 bilhões.
“Não há explicação política para que o comércio entre os países não alcance US$ 10 bilhões”, afirmou o presidente.
Hoje, o Brasil exporta principalmente carnes de aves, açúcar e veículos para a África do Sul, enquanto importa prata, platina e outros minerais.
Em março, os países assinaram acordo para fortalecer a cooperação no turismo, visando mais conectividade aérea e promoção de destinos. Em seguida, surgiram parcerias técnicas em agropecuária, focadas no combate à febre aftosa e no aprimoramento da vigilância sanitária animal.
Apartheid e a guerra no Oriente Médio
Durante sua visita de Estado ao Brasil, Ramaphosa apoiou a posição internacional brasileira de buscar solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio, denunciando que as agressões violam a Carta das Nações Unidas e geram mortes e destruição.
Especialistas destacam que a postura da África do Sul tem peso significativo, dada a autoridade moral adquirida ao superar, sem guerra civil, cinco décadas de apartheid – regime que segregava negros e brancos, privilegiando este último.
“A África do Sul possui autoridade moral porque vivenciou um período interno doloroso e conseguiu superá‑lo sem guerra civil”, analisou William Gonçalves, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia (INCT).
Professor aposentado de Relações Internacionais da UERJ e testemunha de fatos históricos, ele afirma que essa “autoridade” permite que a África do Sul condene Israel por ações em Gaza e no Líbano, rotulando‑as como crimes de guerra e genocídio.
Em 2015, a África do Sul colaborou com a ONU na aprovação das Regras Nelson Mandela – conjunto de normas que proíbem a tortura e garantem julgamento justo, direitos que Mandela e muitos palestinos detidos nas prisões israelenses foram privados.
Nos anos 1970, quando a África do Sul ainda vivia sob segregação racial, o Brasil foi um dos países que pressionou pelo fim do regime, recorda o professor.
O país sul‑americano chegou a romper relações diplomáticas e comerciais com Pretória, sob pressão do movimento negro interno e de uma coalizão africana que ameaçava suspender o fornecimento de petróleo ao Brasil. Na época, a África do Sul era o principal parceiro comercial brasileiro no continente, enquanto o Brasil produzia pouco petróleo.
Defesa da soberania
Com a transição para a democracia liderada por Nelson Mandela na década de 1990, a África do Sul registrou avanços como crescimento do PIB, redução do desemprego e da inflação, além de melhorias nos sistemas de educação e saúde, embora as desigualdades ainda sejam marcantes.
Hoje, a África do Sul representa a maior economia do continente e restabeleceu laços mais estreitos com o Brasil nos anos 2000. O interesse vai além de ganhos econômicos imediatos, abrangendo a construção de uma aliança para o desenvolvimento do Sul Global.
“A experiência de desenvolvimento do Brasil e sua atuação contra desigualdades atrai parceiros com objetivos semelhantes”, destacou Gonçalves.
Para o pesquisador, ambos os países buscam desenvolvimento apesar das complexidades. “Lutam com dificuldades, mas já deram passos relevantes”, afirmou. Ele ainda registra que a África do Sul conquistou autonomia nuclear, sendo a única nação africana a produzir energia nuclear em escala comercial.
Atualmente, Brasil e África do Sul mantêm cooperações na saúde, no combate ao HIV‑AIDS, na luta contra a pobreza, posicionam‑se contra o racismo e defendem o desenvolvimento sustentável.
Na COP de 2025, realizada no Brasil, a África do Sul apoiou a proposta brasileira de criação do Fundo de Florestas Tropicais, reforçando valores como soberania e independência nacional.
Segundo Gonçalves, ambos os países buscam consolidar suas democracias, crescer economicamente e ampliar sua influência global, tornando a aproximação vantajosa para ambas as partes.
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