Duas visitas de Lula à Bahia em menos de 15 dias. Muito palco, pouca entrega. Na primeira, aniversário do PT e ambulâncias. Público abaixo do esperado e promessa de lançamento de chapa que simplesmente não aconteceu. Criou-se expectativa de pré-campanha, mas o evento terminou sem anúncio, sem direção, sem rumo claro.
No mesmo roteiro, coincidência curiosa: o BaianaSystem mobilizando multidão exatamente quando o presidente deixava o local. A política virou cenário. A energia popular não estava no palanque oficial.
No Sudeste, o enredo foi outro. A escola de samba que homenageou Lula recebeu R$ 9,2 milhões em recursos públicos. O discurso foi de “não interferi”. Pode até não ter interferido formalmente, mas dinheiro público não brota do nada. E quando há reuniões com integrantes do Planalto antes do desfile, a narrativa da neutralidade fica frágil. Política não é ingenuidade.
Enquanto isso, os números começam a falar alto.
A pesquisa mais recente do Real Time Big Data mostra Lula com 39%, Flávio Bolsonaro com 32% e Ratinho Júnior com 9% no primeiro turno. Lidera? Lidera. Mas não sobra. No segundo turno, empate técnico com Flávio: 42% a 41%. Contra Ratinho: 43% a 39%. Margem apertada. Sinal amarelo forte.
Na pesquisa anterior, da Genial/Quaest, Lula tinha cenário mais confortável, variando entre 35% e 44% dependendo da simulação, com Flávio mais distante e Ratinho oscilando entre 8% e 10%. O que aconteceu de lá pra cá? Erosão. Desgaste. Rejeição consolidada.
E tem mais. A fala de Lula sobre evangélicos que recebem benefício social mas não votam nele foi politicamente desastrosa. Soou como cobrança. Voto não é contrapartida contratual. Esse tipo de declaração afasta justamente o segmento que já estava desconfiado.
Na Bahia, o cenário é ainda mais sensível.
Jerônimo fala muito. Entrega pouco. E quando o próprio Lula, diante da imprensa, dá indireta pública sobre excesso de discurso e pouca entrega, o constrangimento vira símbolo. Governador fragilizado dentro e fora da base.
A confusão interna escancarou o racha: Wagner anuncia chapa, desdiz, diz que há conversa. Jerônimo volta e afirma que nada está fechado. Depois, cita Zé Ronaldo e Zé Coca como nomes desejáveis ao seu lado, deixando o atual vice, Geraldo Júnior, no escanteio. Resultado? Base dividida, ruído público e disputa interna vazando para WhatsApp com direito a meme comparando liderança política a “elefante em loja de cristais”.
Isso não é detalhe. É sintoma.
O PT enfrenta dois problemas simultâneos: desgaste nacional e desorganização regional. A oposição percebeu. A militância adversária está mais animada do que há meses. E se a articulação de marketing da oposição ganhar musculatura, o jogo fica ainda mais competitivo.
Fato objetivo: Lula ainda lidera. Mas não governa com folga eleitoral. Jerônimo ainda ocupa o cargo. Mas não demonstra força política consolidada. O tempo encurtou. O discurso já não sustenta sozinho.
Política é entrega. Quem não entrega, perde tração.
E para fechar: mérito onde há mérito. Cintia Kelly foi cirúrgica no podcast com ACM Neto. Entrevista firme, perguntas estratégicas, ritmo profissional. Elevou o debate. Quando o jornalismo é bem feito, a política melhora. Simples assim.

Siqueira Costa Júnior, 51 anos.Há mais de 20 anos acompanhando a política baiana e brasileira a partir da vida real, fora dos gabinetes.Empreendedor, motorista de aplicativo, filho, pai e avô. Um cidadão comum que trabalha, paga impostos e não abriu mão de cobrar.Acredita que o melhor assistencialismo é o trabalho, que dignidade não se distribui e que honestidade não é discurso — é prática.Esta coluna é independente, crítica e sem concessões ao poder. Reflete meu pensamento, aqui tenho o direito de expor o que penso sem ofender, apenas opinar.





















