Que tal assistir a uma peça teatral que inclui a Língua Brasileira de Sinais (Libras)? Essa possibilidade se concretiza no espetáculo Os irmãos Karamázov, uma adaptação do romance de Fiódor Dostoiévski, que retorna ao Rio de Janeiro para uma temporada curta a partir desta quinta-feira (8). As apresentações ocorrerão nesta e na próxima semana, de quinta a domingo, no Teatro Carlos Gomes, localizado na Praça Tiradentes, no centro da cidade.

A equipe por trás da peça busca ir além da simples presença de um intérprete de Libras em um canto do palco. A montagem integra a língua de sinais ao espetáculo, com duas atrizes intérpretes fazendo parte do elenco. Uma cena inteira é encenada em Libras, envolvendo todos os atores.
A acessibilidade da montagem, dirigida por Marina Vianna e Caio Blat, não se limita à Libras. Pessoas com deficiência visual podem entrar no teatro antes do público geral para ter contato tátil com o figurino e os atores. Um livro em braile também estará disponível para leitura. Além disso, protetores auriculares são oferecidos para quem possui sensibilidade auditiva.
As apresentações acontecem às 19h nas quintas e sextas-feiras, e às 17h nos sábados e domingos. Os ingressos podem ser comprados pelo site do teatro ou na bilheteria, que funciona às quartas, das 14h às 19h, e nas quintas e sextas, a partir das 16h, e nos sábados e domingos, a partir das 14h. O teatro abre uma hora antes do início de cada espetáculo.
A inclusão da acessibilidade surgiu da experiência de Maria Duarte, co-realizadora e produtora da montagem, que dirigiu um festival com diversos recursos de acessibilidade. Ela descreveu essa experiência como transformadora, abrindo um novo olhar sobre a importância da acessibilidade integrada a projetos culturais.
Maria Duarte propôs a inclusão da acessibilidade aos diretores, buscando que a montagem de Os irmãos Karamázov oferecesse as mesmas condições para todos os espectadores.
“Queremos fazer um espetáculo teatral realmente acessível, que não considere a acessibilidade como uma obrigação ou um obstáculo à criação artística, mas sim como uma ferramenta para enriquecer o espetáculo”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
“Não faz sentido criar uma produção cultural que não seja para todas as pessoas, que são diferentes e têm necessidades diversas”, completou, ressaltando que, embora não tenha presenciado um espetáculo com acessibilidade tão integrada, estava ciente da existência de iniciativas nessa área.
Maria Duarte explicou que a equipe de acessibilidade trabalhou em conjunto com todos os envolvidos desde o início do projeto. Como resultado, o elenco conta com Malu Aquino e Juliete Viana, duas artistas intérpretes de Libras, e uma cena inteiramente em Libras.
“Elas interagem com o elenco, interpretam personagens e traduzem o texto com sensibilidade, buscando uma interpretação em Libras que vá além de uma simples tradução literal”, destacou a co-realizadora e produtora.
“É emocionante ver as soluções artísticas que foram encontradas. Chegou um momento em que percebi que tínhamos alcançado o objetivo antes mesmo da peça estar finalizada. É lindo ver um elenco de 13 pessoas se comunicando em Libras, que foi incorporada aos gestos dos atores”, comentou, expressando a esperança de que esse processo inspire outras produções a adotarem práticas semelhantes.
O diretor Caio Blat mencionou que, em Belo Horizonte, a montagem foi especialmente significativa devido à parceria com o projeto Acessa BH, que possibilitou a apresentação em um teatro lotado com 1,2 mil pessoas.
“A acessibilidade é uma questão fundamental, e existe uma grande demanda por parte do público com deficiência que busca ser incluído na experiência teatral”, observou Caio Blat em entrevista à Agência Brasil.
Teatros Lotados
Todas as apresentações de Os irmãos Karamázov em 2025 tiveram lotação máxima, incluindo apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo (capital e interior), e Belo Horizonte. A expectativa é que a procura do público seja a mesma nesta temporada no Rio.
“Apresentar Dostoiévski em 2025, no Brasil, com teatros lotados em todas as temporadas foi a concretização de um sonho, pois aconteceu exatamente como imaginamos”, disse o ator.
Uma Longa Espera
A ideia de montar um espetáculo com Os irmãos Karamázov acompanhou Caio Blat por mais de 20 anos, desde que se interessou pela obra de Dostoiévski. Ele compartilhou esse desejo com seu amigo Manuel Candeias, com quem leu toda a obra do autor e, após escolher este romance, adaptou o texto para o teatro.
“Tínhamos a convicção de que este seria o romance ideal, pois é o mais teatral das obras de Dostoiévski. É uma tragédia familiar repleta de personagens, conflitos e ação”, explicou.
No início dos anos 2000, começaram a surgir as primeiras traduções diretas do russo para o português da obra de Dostoiévski, o que facilitou o trabalho de adaptação.
“Não queríamos uma peça longa. Buscávamos resgatar o espírito popular de Dostoiévski, um autor de folhetim. Seus grandes romances eram publicados em episódios semanais em jornais, como novelas”, afirmou, destacando que, com o tempo, foram considerados clássicos e obras eruditas.
“A trama familiar, com a pergunta ‘quem matou o pai?’, remete a um folhetim, a uma novela”, disse Caio.
“Queríamos criar uma peça popular, acessível a todos os públicos, com duração máxima de duas horas. Esse foi o nosso desafio: transformar um dos romances mais importantes da humanidade em uma peça popular”, comentou.
Segundo o ator, por falta de oportunidades, o projeto ficou guardado por um tempo. A iniciativa foi retomada quando Caio e Luiza apresentaram o projeto a Maria Duarte.
Maria Duarte acrescenta que, a partir daí, iniciou-se a busca por parceiros para viabilizar o projeto. As primeiras apresentações, em janeiro de 2025, foram no Sesc Copacabana, após serem selecionadas no edital de cultura Sesc Pulsar RJ e, posteriormente, no Sesc São Paulo.
“Foi quando reunimos essa equipe, eu, Maria, Luiza e Marina, que tiramos o projeto do papel e o transformamos em encenação”, relatou Caio.
O ator, que tanto lutou para realizar a montagem, se emocionou na primeira apresentação, em janeiro de 2025. “Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo 24 anos depois de sonhar, imaginar e trabalhar nisso”, pontuou.
Os irmãos Karamázov
A peça apresenta a narrativa focada nos três dias que antecedem e sucedem o crime central da trama. “Ambientada na Rússia pré-revolucionária, a história acompanha as disputas entre os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha e seu pai, Fiódor Karamázov, em torno da herança familiar e do amor pela mesma mulher”, resumiu a produção.
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