Esposa do prefeito Luiz Caetano, a deputada do PT afirmou que a empresa chinesa estaria preocupada com o resultado da eleição presidencial. A BYD negou ter solicitado reunião para discutir o cenário eleitoral. Episódio acirra o debate político na Bahia.
A deputada federal Ivoneide Caetano (PT) provocou repercussão nas redes sociais nesta quarta-feira (7) ao afirmar que a BYD estaria preocupada com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. A declaração, feita durante uma coletiva de imprensa em Salvador, foi contrariada por uma manifestação oficial da própria montadora, que negou ter solicitado qualquer reunião com autoridades para tratar do cenário eleitoral.
Ivoneide é esposa do prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), e integra o núcleo político ligado à administração municipal. Ao abordar o futuro da fábrica instalada no antigo complexo industrial da Ford, a parlamentar afirmou que a montadora chinesa teria procurado o prefeito e ela própria para manifestar preocupação com o resultado das eleições.
“A BYD já pediu uma reunião com o Caetano, e comigo, já estão preocupados, porque caso esse filho do ex-presidente ganhe a eleição, nós vamos ter problemas aqui com a BYD”, declarou.
Na sequência, a deputada levantou a possibilidade de a empresa deixar Camaçari, estabelecendo uma comparação com a saída da Ford do município, em 2021.
A declaração ganhou repercussão por associar diretamente o futuro de um dos principais investimentos industriais da Bahia ao resultado de uma disputa presidencial.
BYD contradiz declaração da deputada
Diante da repercussão, o portal Mais Região procurou a empresa para verificar se havia ocorrido a suposta solicitação de reunião.
A resposta da montadora foi direta:
“A BYD esclarece que não solicitou qualquer reunião com autoridades, de nenhuma esfera, para tratar do cenário eleitoral ou de seus possíveis desdobramentos”, afirmou a companhia.
A manifestação oficial contradiz a afirmação de Ivoneide sobre a iniciativa da empresa de procurar representantes políticos para discutir os possíveis efeitos de uma vitória de Flávio Bolsonaro.
A BYD também reafirmou seus planos de longo prazo no Brasil, destacando a expansão das operações, a geração de empregos e o desenvolvimento da Bahia e do país.
Até o momento, a manifestação citada não indica qualquer intenção de retirar a fábrica de Camaçari.
A divergência levanta uma questão objetiva: se a montadora nega ter solicitado a reunião mencionada pela deputada, qual foi a origem da informação apresentada na coletiva?
O histórico de Luiz Caetano volta ao debate político
A repercussão também coloca novamente em evidência o histórico político do prefeito Luiz Caetano, marido da deputada.
Em maio de 2007, Caetano foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Navalha, investigação que apurava suspeitas de irregularidades em licitações e contratos públicos envolvendo a construtora Gautama.
Na ocasião, agentes federais encontraram R$ 142 mil em dinheiro e US$ 3 mil em uma propriedade do então prefeito, em Arembepe, no litoral de Camaçari. Segundo reportagens publicadas à época, o dinheiro estava guardado em caixas de papelão no quarto do casal.
Caetano afirmou que os valores eram resultado de economias pessoais acumuladas ao longo dos anos e de recursos relacionados a uma viagem internacional. Ele negou irregularidades e contestou a legalidade de sua prisão, da qual foi liberado por decisão judicial.
O episódio faz parte do histórico público do prefeito, mas é necessário distinguir a prisão ocorrida durante uma investigação das conclusões judiciais sobre eventuais responsabilidades. A existência do dinheiro em espécie, por si só, não comprova desvio de recursos públicos.
O PT baiano e o avanço de Flávio Bolsonaro
A declaração de Ivoneide também pode ser interpretada dentro do ambiente de disputa política que envolve o PT na Bahia e o avanço de Flávio Bolsonaro no cenário nacional.
A possibilidade de uma mudança no comando do governo federal representa um tema relevante para os grupos políticos que disputam espaço no estado, especialmente diante da importância econômica da indústria automotiva e dos investimentos anunciados para Camaçari.
Nesse contexto, a fala da deputada alimenta o debate sobre os efeitos de uma eventual vitória do candidato do PL. Entretanto, a manifestação da BYD não confirma o temor atribuído à companhia pela parlamentar.
A avaliação de que o episódio revela desespero na cúpula petista baiana diante da possibilidade de derrota eleitoral é uma interpretação política, e não um fato comprovado. Ainda assim, a contradição entre a declaração da deputada e a resposta empresarial oferece um elemento concreto para o questionamento político.
A saída da Ford não pode ser usada sem contexto
A comparação com a Ford também exige precisão. Em janeiro de 2021, a montadora anunciou o encerramento da produção de veículos no Brasil como parte de uma reestruturação de suas operações na América do Sul.
A decisão foi associada a prejuízos, queda nas vendas, capacidade ociosa e mudanças na estratégia global da empresa, em um período marcado pelos impactos da pandemia de Covid-19.
Portanto, não é correto apresentar a saída da Ford como prova de que uma eventual vitória de determinado candidato presidencial provocaria a retirada de outra montadora do município.
Uma declaração que exige explicações
O caso evidencia a importância de conferir informações sobre investimentos industriais antes de associá-las a cenários eleitorais. A fábrica da BYD tem relevância para o emprego, a cadeia de fornecedores e a economia de Camaçari, o que torna especialmente importante a precisão das declarações públicas.
A deputada afirmou que a montadora teria procurado autoridades por preocupação com uma possível vitória de Flávio Bolsonaro. A empresa, por sua vez, negou ter solicitado qualquer reunião para discutir as eleições.
Até que sejam apresentados elementos adicionais que esclareçam a origem da informação, a afirmação atribuída à BYD permanece contrariada pela posição oficial da própria companhia.
Em um ambiente de intensa disputa política, a credibilidade das declarações públicas depende da capacidade de separar fatos verificáveis, interpretações eleitorais e acusações que ainda precisam ser demonstradas.

















