Para o escritor Itamar Vieira Junior, a ideia de que “brasileiros não gostam de ler” é incorreta. Durante sua fala na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), à noite de ontem (7), ao lado de uma plateia lotada no Largo do Pelourinho, o autor enfatizou que, na verdade, “brasileiros gostam de ler, mas enfrentam dificuldades de acesso para fazê-lo”.

“Posso afirmar que, em todo o Brasil, há um número imenso de pessoas interessadas em livros e leitura. Isso contraria a narrativa de que ‘o brasileiro não gosta de ler’. A realidade é que o problema está na desigualdade de acesso”, declarou, provocando aplausos do público presente.
O autor da Trilogia da Terra, iniciada com o sucesso Torto Arado, seguido por Salvar o Fogo e concluída com Coração sem Medo, destacou que passou por diversas bibliotecas públicas em Salvador durante a juventude. Ele ressaltou a necessidade de ampliar o número de bibliotecas no país para facilitar o acesso à cultura literária.
“O Brasil é um país profundamente desigual, e o livro não é barato. Muitas vezes, não há uma biblioteca pública no bairro, especialmente nas periferias”, criticou. “Se não houvesse essas bibliotecas, perderia muito do que li durante a adolescência e o início da vida adulto. O ideal, no entanto, é ter uma biblioteca em cada bairro”.
Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revelou que 47% da população com 5 anos ou mais se autodeclararam leitoras, o que corresponde a cerca de 93,4 milhões de pessoas.
O estudo também mostrou que 53% dos brasileiros não leram partes de livros nos três meses anteriores e que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.
Paralelamente, o mercado editorial tem observado sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, indicou que 18% da população adulta compraram ao menos um livro em 2025, um aumento de 2 pontos percentuais em relação a 2024. Isso representa cerca de 3 milhões de novos consumidores.
Para Itamar, ampliar o número de leitores no Brasil requer a criação de políticas públicas para garantir o acesso aos livros. Ele citou como exemplo o MEC Livros, uma plataforma digital pública que oferece empréstimo gratuito de obras literárias. O Torto Arado, de seu autor, é o livro mais emprestado na plataforma.
“Este ano teve um projeto incrível: o MEC Livros. Independentemente de você estar em uma comunidade isolada no Amazonas ou em uma grande cidade como Salvador ou São Paulo, o livro está disponível gratuitamente. Essa iniciativa ajuda a reduzir a desigualdade de acesso, mas sabemos que os brasileiros amam histórias e leitura desde sempre”, concluiu.
* A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.
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