Visivelmente abalado e em choque, como todos os seus colegas do Colégio Militar de Brasília, Tiago, de 16 anos, deixou a sala onde o corpo do amigo Isaac Moraes, também de 16 anos, estava sendo velado. O jovem precisava de um momento para processar a comoção. Antes do enterro, realizado no Cemitério Campo da Esperança, na região central de Brasília, os colegas soltaram balões brancos em homenagem ao amigo. 

Isaac foi fatalmente ferido com uma facada na sexta-feira (17), após tentar recuperar seu celular que havia sido roubado por um grupo de adolescentes, nas quadras 112/113 da Asa Sul, em uma área nobre de Brasília. O crime ocorreu próximo ao Parque Maria Claudia Del´Isola, que homenageia uma jovem assassinada em 2004.
Segundo a investigação e relatos de testemunhas, o garoto foi abordado por um grupo de adolescentes que alegou precisar de acesso à internet para fazer uma ligação. Isaac estava jogando vôlei com seus colegas.
Os pais do adolescente assassinado, que trabalham na área da saúde, estavam profundamente abalados e não quiseram dar entrevistas. A declaração em nome da família foi feita pelo irmão de Isaac, Edson Avelino, de 28 anos, analista em tecnologia da informação.
“Isaac era uma criança muito responsável e amada, apesar da pouca idade. Ele tinha o desejo de estudar na mesma área que eu”, disse Edson, emocionado.
Em resposta à reportagem da Agência Brasil, Edson expressou o desejo de que a justiça seja feita e que os responsáveis, mesmo sendo adolescentes, sejam punidos.
“Em um país onde se vota aos 16 anos, acredito que a pessoa deve arcar com seus atos. Eu comecei a trabalhar aos 14 anos com meu pai”, afirmou.
Medo
Um vizinho da família de Isaac e pai de um amigo do menino, o auditor Ricardo Montalvão, relatou que os moradores da região estão tristes e com medo. Ele mencionou que o filho também teve o celular roubado recentemente.
Montalvão criticou a demora no atendimento prestado ao jovem após a agressão, estimando que a espera tenha durado cerca de 30 minutos.
A reportagem da Agência Brasil tentou obter informações com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, mas não conseguiu contato.
Outro colega de escola, Lucas, de 16 anos, lembrou que Isaac era muito divertido e se destacava no vôlei da turma do 2º ano.
“Ele brincou comigo um dia antes. Não consigo entender como isso aconteceu. Ainda não acredito”, declarou.
Investigação
O delegado Rodrigo Larizzatti, da Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente (DCA), informou que sete adolescentes foram ouvidos e três foram apreendidos como suspeitos de envolvimento no caso de Isaac. Ele confirmou que os adolescentes se aproximaram da vítima alegando precisar de conexão à internet.
“Essa é uma prática comum do grupo para realizar roubos. Três deles estavam diretamente envolvidos e foram apreendidos. Durante os interrogatórios, não demonstraram remorso, apenas um deles perguntou se a vítima havia morrido”.
De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), um adolescente (pessoa entre 12 e 18 anos) que comete um ato infracional equivalente a um crime grave, como latrocínio, pode ser submetido a uma medida de internação por até três anos. Após esse período, o adolescente deve ser liberado ou colocado em regime de semiliberdade ou liberdade assistida.
A liberação é obrigatória aos 21 anos, mesmo que o período de três anos não tenha sido totalmente cumprido.
Existe um projeto em tramitação no Congresso que propõe ampliar o tempo de internação de adolescentes infratores de três para cinco ou até dez anos – nos casos mais graves.
Estudos indicam que o roubo é o ato infracional mais comum entre menores de 18 anos, seguido pelo tráfico e lesão corporal. Os homicídios representam menos de 1% dos casos.
Em geral, os adolescentes que cometem atos infracionais apresentam baixo nível de escolaridade e muitos deles não frequentam mais a escola, seja por terem sido expulsos ou por terem que trabalhar para ajudar no sustento da família.
Especialistas sugerem o fortalecimento da rede de proteção social e a garantia dos direitos previstos no ECA para que adolescentes em situação de vulnerabilidade não cometam atos infracionais.
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